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O dia 24 de julho
de 2010 é a data escolhida por Ridley Scott e Kevin Macdonald para
rodar I
Foto: screenshot
Documentário coletivo será filmado este sábado por pessoas do mundo
todo
Sexta-feira,
23.07.2010 I
Esta matéria em espanhol
I Do
canal no YouTube
O projeto
Life in
a a Day (A Vida em Um Dia) será filmado este sábado em
todo o planeta. Trata-se de uma experiência global histórica
destinada à criação do primeiro longa do mundo filmado por muitas
pessoas: um documentário rodado em um único dia. Em 24 de julho,
todos os que queiram participar terão 24 horas para captar um
fragmento de suas vidas com uma câmera. As sequências mais
significativas e fascinantes serão editadas em um documentário
produzido por Ridley Scott e dirigido por Kevin Macdonald.
A estreia do longa
ocorrerá no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2011 e
poderá ser vista no
YouTube, e para
isso os vídeos deverão ser upados de 24 a 31 de julho no site. Todos
aqueles que tenham uma sequência incluída no filme definitivo
aparecerão como codiretores do mesmo e poderão ser um dos vinte
colaboradores selecionados para acompanhar Macdonald na apresentação
do documentário na cidade estadunidense.
Segundo o diretor,
o objetivo é realizar um filme que represente uma instantânea da
vida na Terra durante um período de 24 horas. O cineasta afirma que
precisa encontrar vínculos entre os vídeos, e que aqueles podem ser
temáticos (o medo ao futuro ou o amor por um filho) ou temporários
(a hora do café da manhã, o trajeto para ir ao trabalho ou um
amanhecer no Rio de Janeiro, Londres ou Windhoek).
Macdonald, diretor das premiadas Um Dia em Setembro e O Último Rei da Escócia,
resume o propósito do projeto contando que quer fazer uma crônica do
mundo em um só dia. "Em última instância, trata-se de uma
experiência única no âmbito da filmagem colaborativa, que constitui
uma cápsula do tempo através da qual será possível mostrar
para as gerações futuras como era a vida em 4 de julho de 2010,
conclui.

Cauã Reymond e
Fabíula Nascimento protagonizam o longa Não Se Pode Viver Sem Amor I
Foto: Dvulgação
Festivais de Lima e Gramado anunciam homenagens e filmes em
competição
Quarta-feira,
21.07.2010 I
Esta matéria em espanhol
Os festivais de cinema de Lima, no Peru, e Gramado, no Brasil,
anunciaram os nomes dos homenageados das suas próximas edições,
assim como os títulos dos filmes que estarão em competição. Ambos
eventos cinematográficos serão realizados em agosto.
Em Gramado, cidade
localizada no Rio Grande do Sul, farão parte da mostra competitiva
os longas nacionais 180º (de Eduardo Vaisman), Diário de
uma Busca (de Flavia Castro), Não Se Pode Viver Sem Amor
(de Jorge Durán), O Último Romance de Balzac (de Geraldo
Sarno) e O Contestado – Restos Mortais (de Sylvio Back),
todos do Rio de Janeiro, além de Enquanto a Noite Não Chega
(de Beto Souza, Porto Alegre) e Ponto Org (de Patricia Moran,
São Paulo).
Em representação
do cinema estrangeiro, participarão El Vuelco del Cangrejo
(de Oscar Ruiz Navia, Colômbia), Historia De Un Día (de
Rosana Matecki, Venezuela), La Vieja de Atrás (de Pablo José
Meza, Argentina), La Yuma (de Florence Jaugey, Nicarágua),
Mi Vida con Carlos (de Germán Berger, Chile), Ojos Bien
Abiertos: Un Viaje por la Sudamérica de Hoy (de Gonzalo Arijón,
Uruguai) e Perpetuum Mobile (de Nicolás Pereda, México).
Junto aos quatorze
longas, competirão também na 38ª edição dezesseis curtas-metragens
brasileiros, e se distinguirá com o troféu Oscarito a Paulo César
Pereio, pelo conjunto da obra, e com o prêmio Eduardo Abelin a Ana
Carolina Soares, pelo destaque na indústria do cinema nacional.
Já o Festival de
Cinema de Lima terá a participação de três filmes peruanos na sua
14ª versão, com a entrada em competição de longas já exibidos no
exterior: Contracorriente (de Javier Fuentes León e premiada
pelo público de Sundance), Octubre, de Daniel e Diego Vega (prêmio
do jurado na mostra Un Certain Regard, em Cannes), e
Paraíso, de Héctor Gálvez (apresentada em Veneza).
Serão projetados
145 longas-metragens e 70 curtas e haverá homenagens para a atriz
peruana Delfina Paredes e para a família Barreto, uma das mais
tradicionais do cinema brasileiro. A realizadora Claudia Llosa,
diretora de La Teta Asustada, fará parte do jurado oficial do
festival, que terá início em 6 de agosto com o filme salvadorenho
Uno, la historia de
un gol.
O evento limenho,
que se prolongará até 14 de agosto, terá também mostras paralelas,
entre as quais se destacam uma retrospectiva do ator e diretor
francês Jacques Tati e um ciclo de cinema argentino dedicado ao
futebol. Além disso, serão realizados debates e várias outras
atividades nos nove dias de festival.
Com informação
do
Universo Online e da
Andina.

Luana Nunes e
Nataly Cavalcanti dão vida às personagens criadas por Ruy Jobim Neto I
Foto: Revista Brasileiros
Espetáculo ambientado na colônia conclui temporada com nova roupagem
Segunda-feira,
12.07.2010
Nesta semana serão
realizadas em São Paulo as duas últimas sessões da nova temporada de
Do Claustro, espetáculo que, depois de ter sido
apresentado com bastante sucesso há dois anos na capital paulista,
no Rio de Janeiro e no Festival de Curitiba, voltou em junho com uma
nova roupagem, e créditos diferentes na direção, elenco e equipe
técnica.
A nova versão
apresenta as atrizes Luana Nunes e Nataly Cavalcanti, que foram
selecionadas em um casting para substituir Carolina Mesquita e
Débora Aoni, nos papéis de irmã Cecília e irmã Mariana,
respectivamente. Produzida pela
Companhia
Mestremundo de Histórias e escrita por
Ruy Jobim
Neto, a montagem ficou por conta do estreante Filipe Peña, em
adaptação de Claudio Cabral.
O texto é
ambientado no século XVII, em pleno período colonial, e narra a
história de Mariana, uma jovem filha de senhor de
engenho, que é enclaustrada em um convento em Salvador (Bahia). Às vésperas de seus votos para
se tornar freira, ela entra em guerra interna entre culpa e
desejo, lembranças e projeções que a fazem questionar quem dita as
regras ali e qual é a verdade de Deus, se ele aceita
tantas
controvérsias naquele universo?
Mariana confessa à
irmã Cecília seu relacionamento amoroso com um poeta-advogado que se
encontra preso, narrando episódios de sua vida, como a violência do
pai, experiências sexuais e o refúgio em um quilombo. Amparado por
uma forte pesquisa sobre a época, o texto é considerado pelo próprio
autor como um drama de amores conventuais,
Inquisição e sexualidade, uma investigação cênica sobre a condição
da mulher brasileira nos primórdios da história do país.
Ruy Jobim Neto
conta que o Convento de Santa Clara do Desterro foi o primeiro
mosteiro
feminino do Brasil e que abrigou, em seus primórdios, as
filhas, escravas e viúvas dos poderosos senhores de engenho de
cana-de-açúcar. "Foi atrás dessa atmosfera que nós fomos a Bahia, em
maio
de 2007, para as pesquisas da primeira montagem de Do Claustro,
(que) retorna novinha em folha,
ao sabor das caravelas, dos rosários e de todo o horror que era a
condição
feminina nos primeiros duzentos anos de nossa história", conclui.
Ficha técnica
Texto: Ruy Jobim
Neto I Adaptação: Claudio Cabral
Direção: Filipe Peña I Elenco: Luana Nunes e Nataly Cavalcanti
Preparação de Elenco: Claudio Cabral I Iluminação: Davi de Brito
Assistência de Iluminação: Vânia Jaconis I Direção Musical: Rhode
Mark
Cenotécnica: Nilton Ruiz I Confecção de figurinos: Francisca Gomes
Operação de luz e som: Cia. Mestremundo de Histórias I Fotos de
cena: Will Prado
Direção de
Produção: Filipe Peña I Produção Executiva: Ruy Jobim Neto
Serviço
Apresentações: terça-feira 13 e quarta-feira 14 de julho
Horário: 21:00 I
Classificação: 16 anos I Duração: 50 minutos
Local: SESC Consolação (R. Dr. Vila Nova, 245, São Paulo)
Ingressos: R$ 10,00 (inteira); R$ 5,00 (usuário matriculado no SESC
e dependentes, maiores de 60 anos, estudantes e professores da rede
pública de ensino); R$ 2,50 (trabalhador no comércio e serviços,
matriculado no SESC e dependentes).

O universo do
dramaturgo espanhol é levado ao palco nesta nova montagem do Teatro
Kaus I
Foto: Divulgação
O
Grande Cerimonial apresenta um Casanova às avessas em texto de
Arrabal
Quarta-feira,
23.06.2010
A peça O
Grande Cerimonial, do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal,
está em cartaz todas as quartas e quintas-feiras em São Paulo, para
contar a história de Cavanosa e suas relações contraditórias com sua
mãe, mulheres e bonecas, em uma montagem do
Teatro Kaus
dirigida por Reginaldo Nascimento.
Cavanosa na
verdade é um Casanova às avessas que todas as noites seduz uma
mulher e a leva a seu quarto, onde estabelece um rito tresloucado de
amor, que não passa de um projeto, uma fantasia extraída de seus
sonhos. O texto, inédito, é levado ao palco com as atuações de
Alessandro Hernandez, Amália Pereira, Deborah Scavone e Alessandro
Hanel, que exploram o trabalho corporal, empregando grande força
física e emocional na montagem.
A peça traz para
cena o mundo claustrofóbico do autor e estabelece um jogo permanente
entre o belo e o grotesco, a vida e a morte, o sonho e a realidade,
a fantasia e os pesadelos, de cinco personagens: além de Cavanosa,
se encontram a mãe, Sil, o amante e Lis. "Revelamos na montagem um
pouco do universo de Arrabal, vestido com as cores da ciência, da
filosofia, da rebelião, do humor, do sofrimento, do amor e da
imaginação sem limites", afirma Nascimento.
Na concepção da
montagem, o grupo optou por uma linguagem híbrida que transita com o
absurdo, o surrealismo e o expressionismo. "Busquei construir
interpretações fortes, trabalhadas numa partitura física que
apresenta uma gestualidade bem definida para ampliar as
possibilidades de comunicação num espetáculo onde o não olhar amplia
a capacidade de ver de fato quem somos e para onde vamos", conta o
diretor.
O Teatro Kaus Cia
Experimental foi criado em 1998 por Nascimento (que além de diretor
é também ator) e pela atriz e jornalista Amália Pereira, para dar
continuidade aos estudos e pesquisas sobre a dramaturgia nacional,
que tiveram início dois anos antes, em São José dos Campos. Depois
de realizar o projeto Brasil em Cena, uma Trilogia do Teatro
Nacional, com a montagem dos textos O Santo e a Porca,
de Ariano Suassuna, O Cocô do Cavalo do Bandido, de
Chico de Assis, e Oração Para Um Pé de Chinelo, de
Plínio Marcos, o grupo se estabeleceu definitivamente na capital
paulista.
Serviço
Direção: Reginaldo
Nascimento I Texto: Fernando Arrabal
Elenco: Alessandro
Hernandez, Amália Pereira, Deborah Scavone e Alessandro Hanel
Temporada: até 1
de julho, quartas e quintas-feiras, às 21:00
Duração: 100
minutos I Recomendação: 14 anos
Local: Teatro
Augusta - Sala Experimental I Capacidade: 50 lugares
Endereço: Rua
Augusta, 943, Cerqueira César I Telefone: 3151-4141
Ingressos: R$
30,00 e R$ 15 (estudantes, maiores de 60 anos e classe teatral)

Marins atua ao lado
de Jannete Tomiita em uma cena em que ela sai de dentro de um porco I Foto:
Divulgação
Demônios
e Maravilhas: o estranho mundo de José Mojica Marins I Parte 2 de 5
Quinta-feira,
17.06.2010 I
Autor: Jorge A. Grajales I Tradução: Sergio Palacios
Originalmente
publicado na revista Cinefagia, entre 18.09.2003 e 16.10.2003
Esta
matéria em espanhol
O episódio com o vendedor de batatas não seria a única vez em que
Marins teria aproximações com o mundo dos mortos. Anos mais tarde,
aos quinze, quando passeava com um amigo seu, sua bicicleta se
decompôs na frente do cemitério e, com horror, ambos viram como
varias luzes resplandescentes se alçavam sobre as tumbas dos mortos.
Este é um fenômeno conhecido como fogo fátuo, mas para os
impressionáveis meninos eram as almas dos mortos que estabam
dispostos a invadir o mundo. Dadas estas experiências e vivendo em
um país impregnado com magia e misticismo, resultado da mistura de
grupos raciais e religiosos, não é de estranhar que os filmes de
José Mojica Marins, especialmente seus filmes de terror, reflitam um
singular e rico folclore que não se parece a nada que se tenha
filmado no país.
Ao fazer dez anos de idade, Mojica Marins pediu de presente uma
câmera de 8 mm e com ela se preparou para dirigir seu primeiro
filme, chamado O Juízo Final. Influenciado pelos quadrinhos
de "Buck Rogers", "Flash Gordon" e outros títulos de ficção
científica, assim como pelos sermões sobre o juízo final que
escutava na igreja, este filme narrava como seres de outros planetas
chegavam à Terra em féretros voadores para levar aqueles que eram
bons, enquantos as pessoas más eram paralisadas e transformadas em
vermes.
Assombrado pelas ideias do filho, o pai de Mojica Marins convidou
vários de seus amigos, incluindo o sacerdote local, para a exibição
do filme. Terminada a sessão, o padre recomendou tratamento
psiquiátrico para o garoto e decidiu expulsá-lo das aulas dramáticas
da igreja. Este seria o primeiro de vários incidentes que Marins
teria com a Igreja. Mas o pequeno Mojica não desanimaria. Pelo
contrário, já que continuou filmando uma grande quantidade de curtas
em 16 mm, a maioria deles com temáticas de horror (alguns dos quais
voltaria a filmar para a serie de televisão "Além, Muito Além do
Além") e alguns outros que em certa medida retratavam a
cotidianeidade e realidade de seu povo de classe operária, como
Os Lugares Por Onde Eu Passei (sua segunda aventura fílmica, com
duração de 20 minutos, que capturava em celuloide lugares e amigos
de Vila Anastácio), Fantasia Cinematográfica (um breve
documentário de 15 minutos que explora a magia do cinema a través
das salas de exibição da Boca do Lixo) e Greve dos Vagabundos
(sobre os mendigos que vão parar no palco de um importante evento
cultural e que aproveitam a ocasião para pedir ao povo que dê
oportunidades de trabalho aos mendigos, afirmando que a falta de
cultura não é um defeito).
Estas aventuras fílmicas haviam preparado o ainda jovem Mojica a se
lançar à direção de seu primeiro longa em 35 mm. Titulado
Sentença de Deus, o projeto ficou inacabado devido a uma série
de desgraças: a atriz principal se afogou em uma piscina, sua
substituta morreu de tuberculose durante as filmagens, e uma
terceira foi atropelada e perdeu uma perna. Mojica decidiu cancelar
a produção definitivamente. Anos mais tarde conheceu uma escritora,
Aldenoura de Sá Porto, e juntos converteram o roteiro em uma novela,
que era vendida em espetáculos circenses onde se projetavam as cenas
que chegaram a ser filmadas.
Seu seguinte projeto, No Auge do Desespero, foi também
atingido pela desgraça; a filmagem teve que ser interrompida quando
uma tempestade destruiu todo seu equipamento, incluindo a câmera.
Seria apenas em 1959, quando contava com 23 anos de idade, que
Marins realizaria seu primeiro longa-metragem completo: A Sina do
Aventureiro, o primeiro faroeste brasileiro e o primeiro filme
realizado em Cinemascope nesse país. O longa foi visto pela Igreja
como um ataque a moral devido a uma cena em que duas mulheres eram
vistas nuas (em uma distância de 100 metros da câmera) tomando banho
em uma cascada, e foi aí que iniciou-se uma campanha para proibi-la,
especialmente nas menores cidades do Brasil, onde a Igreja tinha
mais poder.
Para não ter mais problemas com a Igreja, Marins decidiu fazer um
filme que fosse do agrado desta. O resultado foi Meu Destino em
Tuas Mãos, uma história sobre jovens perdidos que voltam ao
caminho do bem graças a um sacerdorte. O filme foi um verdadeiro
fracasso e seus produtores perderam dinheiro. Seu seguinte projeto,
Geração Maldita, atravessava vários problemas de produção que
desanimavam Mojica. Na noite do dia 15 de outubro de 1963,
preocupado por todos esses problemas financeiros, agravados pelas
dívidas geradas por publicar uma série de fotonovelas, que o haviam
deixado em bancarrota e obrigado a se mudar com a família da sua
esposa, Mojica teve um pesadelo. Ou uma visão. Nela, uma figura sem
rosto e vestida completamente de preto o arrastava até uma caverna,
onde contemplou uma gigantesca lápide com seu nome gravado nela,
assim como a data de seu nascimento e a de sua morte, que se recusou
a ver. Foi então que viu o rosto dessa sinistra figura de preto que
não parava de rir de forma macabra e percebeu que era ele mesmo. A
experiência o impressionou tanto que quando acordou já tinha a ideia
e o título para um novo filme, e a trama e o personagem principal
gravados em sua mente. Abandonando completamente o projeto de
Geração Maldita, Marins se dedicou a reunir os fundos
necessários para filmar À Meia-Noite Levarei Sua Alma, filme
que teria sua estreia em 9 de novembro de 1964.
O filme em preto e branco se concentra em Zé do Caixão, o dono de
uma funerária de um vilarejo pobre, conservador e profundamente
católico. Em total contraste a eles, Zé é um homem abertamente ateu
e blasfemo sem nenhum sentido da moral e ética que não seja a sua
própria, e que desfruta de provocar a comunidade. Vestido sempre de
preto e com unhas bastante longas, Zé está obcecado em ter um filho
que continue seu legado e sua maneira de pensar. Infelizmente,
Lenita —
sua esposa
—
não pode tê-los, então Zé presta atenção em Terezinha, que tem todos
as condições para ser a mulher ideal que possa ter um filho seu. Mas
ela é a noiva de Antônio, o único amigo verdadeiro de Zé. Isto não é
algo que o detenha, de tal forma que depois de urdir um plano no
qual assassina Lenita e Antônio, fica com o caminho livre para se
aproximar de Terezinha. Ao resistir às investidas de Zé, a moça é
estuprada por ele e se suicida, mas não sem antes amaldiçoá-lo e
prometer arrastar sua alma ao inferno. Desiludido por sua morte, Zé
continua buscando a mulher ideal que dê a luz ao seu filho. Esta
aparece a véspera do Dia dos Mortos na forma de uma jovem e
atraernte visitante que, assim como ele, tem uma visão ateia do
mundo. Sem perder tempo, Zé se oferece para acompanhá-la a casa da
tia a quem visita, localizada perto do cemitério local. No caminho
eles se cruzam com uma velha bruxa, que adverte Zé que à meia-noite
a maldição de Terezinha será cumprida…
Filmada em um pequeno set durante duas semanas, À Meia-Noite...
se tornou um filme atípico no Brasil por várias razões. Não apenas é
o primeiro filme de terror realizado na região, mas também uma com
visão muito pessoal e atitude profundamente sacrílega carregada de
imagens bastante explícitas e atrevidas para a época. E ainda que
Marins não mostre grandes virtudes técnicas, o filme conta com
momentos bem resolvidos, especialmente as cenas finais no cemitério
e a procissão de mortos filmada em negativo. Outro ponto a seu favor
é a atmosfera gerada ao longo de todo o filme e seus evocativos
créditos iniciais, nos quais Zé do Caixão aparece recitando um
monólogo sobre a vida, a morte e a religião, para depois abrir passo
à velha cigana fazendo um sinal de advertência ao público sobre a
natureza do filme, muito similar às introduções do Guardião da
Cripta ou da Velha Bruxa nas histórias dos títulos de terror dos
gibis como "Tales from the Crypt" ou "The Vault of Horror", que sem
dúvida foram uma influência para Mojica Marins.
Apesar de suas atemorizantes cenas sem precedentes de sexo,
violência e sadismo, o aspecto mais perturbador de todo o filme está
na figura de Zé do Caixão, um vilão que
—
ainda que pareça
contraditório —
é honesto e direto, crente de tudo o que diz e faz. De certa forma,
é como o Zaratustra de Nietzsche: um homem além do bem e do mal, que
acredita nos fatos e nas ações. Um verdadeiro existencialista. Zé
sustenta que o propósito da vida é vivê-la, enquanto os habitantes
da cidade vivem prisioneiros de suas próprias superstições e medos.
Assim como a filosofia satanista proposta por Anton La Vey, se veste
completamente de preto e protege as crianças, luta pela inocência e
pureza, buscando sempre o filho perfeito através da mulher superior.
E, no final das contas, quer fazer do mundo um lugar mais pacífico
para morar, sendo sua filosofia não se importar que cem pessoas
morram se um milhão estão seguras.
Talvez por isso Mojica não encontrou ninguém que quisesse encarnar o
personagem e o terminou interpretando. Tomando de improviso a capa
negra do cuidador do 'estudio' que estava envolvido com cerimônias
de candomblé e aproveitando as unhas longas de seus polegares que
havia deixado crescer desde que era criança, Mojica deu vida a Zé do
Caixão, a quem complementou com uma cartola e um medalhão. Seria a
solução mais simples que Mojica teria para esta produção cheia de
problemas financeiros e na qual tudo parecia conspirar contra si: os
atores se recusavam a trabalhar com as aranhas caranguejeiras e os
técnicos diziam que era impossível construir o cenário em um estúdio
tão pequeno. E quando não eram os criadores, era a polícia, que
chegava atendendo as queixas dos vizinhos. Para terminar as
filmagens, Mojica não teve mais remédio que vender tudo o que
possuía: roupa, móveis, quadros, o carro da família e sua casa, pelo
qual sua esposa teve que voltar a morar de novo na casa dos seus
pais. E para finalizar, no último dia da produção, quando Mojica não
dispunha mais de recursos para continuar, os atores não quiseram
trabalhar devido ao tempo ruim. O diretor se enfureceu e os obrigou
a terminar na mira de um revólver, o mesmo que utilizava no longa.
Mesmo com a censura de várias cenas exercida em algumas cidades
pequenas, o filme se tornou um sucesso. Lamentavelmente, Marins
nunca viu um centavo desse dinheiro, já que para terminar de pagar
suas dívidas e levar comida para sua família, teve que vender todos
os direitos do longa. Ao longo da sua vida, Marins se encontraria em
situações similares, graças a sua obsessão em fazer cinema.
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