arquivo de notícias novembro / dezembro 2009

 

O artista paraguaio cumprirá quatro décadas de trabalho sobre o palco no próximo ano I Foto: Peça Galileu

 

José Luis Ardissone: "Na ditadura, o teatro era uma janela para a esperança"

Quinta-feira, 24.12.2009 I Esta matéria em espanhol I Todas as entrevistas

 

Arquiteto, ator, diretor, cenógrafo, figurinista e dramaturgo. José Luis Ardissone, o fundador do Arlequim Teatro, a companhia mais emblemática do Paraguai e uma das mais importantes do continente, é um artista que desenvolveu vários talentos ao longo de uma carreira que soma uma quantidade impressionante de realizações, prêmios e reconhecimentos.

Ardissone nasceu em Assunção em 3 de novembro de 1940 e desde cedo começou a nutrir gosto pela atuação. No entanto, formou-se em Arquitetura no Rio de Janeiro, onde chegou no fim dos anos 50, em uma época de grande efervescência artística no país que via nesse momento o surgimiento da bossa nova. "Escutei e vi tocar em uma mesma noite Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Nara Leão e João Gilberto", relembra.

 

Foi somente em 1970 que o artista decidiu se dedicar à carreira teatral; e desde então não parou mais. Foi co-fundador do Grupo Gente de Teatro e, em 3 de maio de 1982, fundou o Arlequim Teatro, que se destacou ao longo dos anos não só por seu trabalho sobre o palco mas também por sua missão de divulgação e contribuição social. A companhia já se apresentou em Portugal, Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia, Peru e Brasil, além de ter sido considerada de Interesse Cultural Nacional pelo Parlamento paraguaio.

 

Com mais de 150 peças encenadas e reconhecimentos conquistados no Paraguai e no exterior, o Arlequim Teatro continua trabalhando com o mesmo vigor em novos projetos, como revelou seu fundador nesta entrevista realizada em novembro pelo ALDEIA CULTURAL. Entre outros assuntos, Ardissone também falou dos anos difíceis da ditadura, de sua estadia em terras brasileiras e do nível atual do teatro em seu país.

 

Arlequim Teatro: As Troianas (1984); A Proibição da Menina França (1994); Adivinhe Quem Vem (2007)

 

 

Entrevista I José Luis Ardissone, ator, autor e diretor

 

"Completar 27 anos de trabalho teatral ininterrupto em um meio difícil, e às vezes até hostil, é um prazer muito grande".

 

"O poder do teatro é tão grande, que não importa onde você atue, basta que o faça diante de um grupo de seres humanos para que a magia se instale".

"
Desde muito pequeno senti a necessidade de ter diante de mim alguém a quem contar uma história".
 

"O teatro paraguaio está sendo testemunha da aparição de uma geração de jovens atores e atrizes".
 

 

ALDEIA CULTURAL (AC). Sua companhia já leva quase 30 anos de trabalho sobre o palco, com mais de 150 montagens realizadas e vários prêmios e reconhecimentos. Quais foram os melhores momentos e, em contrapartida, os mais difíceis em todo este tempo?
JOSÉ LUIS ARDISSONE (JLA). Chegar a completar 27 anos de trabalho teatral ininterrupto em um meio difícil, e às vezes até hostil, é um prazer muito grande. Cada aniversário nos enche de satisfação. Levantar o telão uma e outra vez, sentir a resposta positiva do público, ver como novas gerações de atores e atrizes vão se formando ao nosso lado, como se consolida o trabalho de colegas, é também uma alegria grande. Receber o reconhecimento de instituições, privadas e oficiais, do país e do exterior, nos reconforta e nos alenta. Foram muitos os momentos de alegria em todos estes anos. Na nossa história há também momentos difíceis e de pesar. A perda da nossa primeira sede, as ameaças do regime político imperante no Paraguai nos primeiros sete anos de nossa existência, problemas econômicos que nos angustiam cada certo tempo, a partida definitiva de vários dos colegas que nos acompanharam em muitas montagens, o fracasso de algumas montagens que pensávamos que seriam um sucesso, nos deixam com a alma abatida. Mas o importante é saber vencer os obstáculos e como cantava a 'Mãe Coragem' depois de sofrer tanta angústia: "tem que saber continuar e não esmorecer".

AC. Quando o senhor fundou o Arlequim Teatro, o Paraguai e boa parte do continente viviam sob a ditadura militar, embora as manifestações constantes pela volta da democracia ganhassem cada vez mais força. Nesse contexto, havia uma dificuldade especial em fazer teatro? O que mudou daquele tempo para os dias de hoje?
JLA. Nos anos da ditadura, o teatro era uma janela aberta à esperança. Nosso repertório incluia peças da dramaturgia universal que de alguma maneira diziam o que nos acontecia como nação e como habitantes deste país. O público que enchia a sala escutava da boca dos atores aquilo que lhe oprimia o peito e a garganta, e sentia que era ele quem se expressava. O controle era severo, a censura forte, mas os encarregados de exercê-la eram também ignorantes. Os que falavam eram Shakespeare, Molière, Sófocles, Eurípides, e os censores não os entendiam, mas o público sim. Até que chegou um sinistro personagem escapando da Espanha e dos ares novos de lá, e esse sim, diretor de teatro, entendia e nos denunciou. Primeiro foi a ordem de fechar o teatro, ordem que não chegou a se concretizar graças ao ministro de Educação, logo após ameaças anônimas de explosão de bombas na sala, depois o controle direto e permanente da polícia em cada apresentação. E isso, até o mesmo dia de desmoronamento do regime. Depois veio o desconcerto, já não havia contra quem lutar, e o público buscava outros meios de diversão. O teatro deixou de ser esse centro onde se enchia a alma. Mas tudo volta a seu curso, aos poucos, lutando contra a banalização da sociedade, a indiferença dos meios, os avanços da aloucada globalização, o teatro foi recuperando seu lugar. Não é hoje uma necessidade, mas as propostas chegam a um público que aprecia a emoção de se ver refletido em cena. E algo está mudando desde o Governo; alguma consciência existe agora de que o teatro, como dizia Lorca, "é a ferramenta mais eficaz para a edificação de um país", e algum tijolo tímido está sendo colocado pelos que nos governam, nesta época de mudanças quase atolada na saudade dos que vão perdendo privilégios.

AC. Quando e como surgiu sua paixão pelo palco e quais foram suas primeiras aproximações ao teatro?
JLA. Desde muito pequeno eu senti a necessidade de ter diante de mim alguém a quem contar uma história. Era o 'ator' infaltável das comédias escolares. Tinha oito anos quando interpretei o máximo herói da história paraguaia, o Marechal Francisco Solano López, e um ano mais quando interpretei o General José de San Martín. Mas foi preciso que se passassem vários anos, até que minha profissão de arquiteto me aproximou profissionalmente ao teatro. Comecei como cenógrafo da Companhia de Comédias do Ateneu Paraguaio. Pouco depois, em 1970, fundamos com outros colegas o Grupo Gente de Teatro, e ali se produziu minha primeira incursão como ator na farsa de Aurelio Ferreti O caixa que foi até a outra esquina. Desde então ninguém conseguiu me tirar do palco. Em 1982 fundei o Arlequim Teatro, e levantei sua primeira sede em um velho depósito em ruínas com as economias que pude fazer com a minha profissão de arquiteto, e o apoio da minha esposa, já falecida, da minha família e de alguns amigos. Depois me dediquei a dirigir, e hoje, quando se passaram sessenta anos daquela primeira atuação infantil, continuo com esta apaixonante carreira, dirigindo e atuando e adiante do Arlequim Teatro, com o apoio de três dos meus cinco filhos.

AC. O senhor realizou estudos de Arquitetura no Rio de Janeiro. Que lembranças tem do período em que viveu em terras brasileiras? Chegou a ter contato com artistas locais nessa época?
JLA. Acredito que o melhor que meus pais fizeram pela minha formação foi ter me mandado estudar Arquitetuta no Rio de Janeiro em 1959. De uma sociedade plana e fechada, como era a Assunção desse tempo, passei a viver em uma cidade fascinante de um país que vivia seus 'anos dourados'. A primeira coisa que aprendi, eu que havia visto Stroessner subir ao poder aos 13 anos, foi o valor da liberdade e da democracia. Assisti fascinado aos anos de governo de Juscelino Kubitschek, a campanha eleitoral que levou Jânio Quadros ao governo, o choque da sua renúncia, a assunção de João Goulart. Já tinha voltado de Assunção com o diploma debaixo do braço quando no dia 1 de abril de 1964 o golpe militar instaurou a ditadura brasileira. Vivi o nascimento da bossa nova, escutei e vi tocar em uma mesma noite Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Nara Leão e João Gilberto, fui testemunha da inauguração de Brasília e tive o privilégio de trabalhar com Roberto Burle Marx, o maior paisagista de todos, no desenho dos jardins de Brasília e do Aterro do Flamengo no Rio. Vi muito teatro, o que me permitia o meu orçamento de estudante, mas não tive contato pessoal com aqueles 'monstros' que eram Tônia Carrero, Paulo Autran, Maria Della Costa, Flávio Rangel, Fernanda Montenegro, Raul Cortez e outros.

 

AC. Já com a sua companhia, o senhor apresentou várias peças no Brasil e também em outros países, como Chile, Bolívia e Portugal, por exemplo. Como avalia a experiência de se apresentar em outros lugares, inclusive em países onde se fala outro idioma?
JLA. O poder do teatro é tão grande, que não importa onde você atue, basta que o faça diante de um grupo de seres humanos para que a magia se instale e sua emoção contagie. Os paraguaios temos o complexo de nos considerarmos menos que as pessoas dos outros países. Se algo vem de fora, é sempre melhor do que aquilo que fazemos aqui. Atuar diante de um público de outros países permitiu comprovar que não somos piores, que somos tão bons como muitos e que não estamos errados no que fazemos. Permite também criar vínculos de amizade e profissionais que enriquecem nossa carreira e nossa vocação.

AC. Como vê o teatro paraguaio em geral? Gosta das propostas que se apresentam atualmente, a dramaturgia, os atores?
JLA. O rio está correndo, e quando o rio corre… O teatro paraguaio está sendo testemunha da aparição de uma geração de jovens atores e atrizes formados em diferentes academias, que dão um ar fresco às temporadas teatrais. Não tudo o que se faz tem valor nem é mostra de talento, mas bastante do que se vê tem méritos suficientes para dizer que aqui há teatro para muito tempo. Talvez seja nossa dramaturgia que se ressinta da falta de autores. Alguns poucos jovens escrevem e montam suas peças. Talvez seja o início de uma nova geração de dramaturgos que vão ocupando o lugar dos que já não estão, ou deixaram de escrever, e que em uma época conseguiam encher as salas e emocionar com suas peças.

AC. ¿Para que direção aponta o Arlequim Teatro neste momento e quais são os projetos que a companhia pensa desenvolver no futuro próximo?
JLA. Desde o início o Arlequim se interessou nos jovens e na possibilidade de contribuir para sua formação com o teatro. O programa Estudantes ao Teatro permite que mais de 25.000 jovens assistam anualmente a nossas montagens, e não só como público passivo que vê uma peça e vai embora. É proporcionado a eles material de estudo sobre a peça e seu autor e há um debate no final das sessões, debate que logo continua nas aulas com seus professores. O teatro como ferramenta de transformação é outro de nossos programas. Com apoio da Inter American Foundation, é realizado o programa Construindo cidadania através do teatro, com alunos de cinco instituições educacionais da área suburbana. Neste momento, além da continuidade desses programas, nos encontramos dedicados à preparação de nosso repertório da temporada 2010 e à elaboração de um projeto de envergadura para nos juntarmos à celebração do Bicentenário da Independência Nacional em 2011.

 

Fotos: peças A Paixão de Rafael Barrett e Monogamia.

 

Amok Teatro se apresentará em São Paulo com peça sobre o conflito entre judeus e árabes I Foto: Divulgação

 

Teatro: festival conclui no MS, As Meninas se despedem e Amok chega a SP

Domingo, 13.12.2009

 

Festival de teatro termina esta noite no Mato Grosso do Sul

Concluirá neste domingo a 28ª edição do Festival Sul-Mato-Grossense de Teatro, realizado em Rio Verde desde a última quinta-feira (10) em parceria entre a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, a Federação Sul-Mato-Grossense de Teatro e a Prefeitura Municipal de Rio Verde. Depois de cada uma das treze apresentações, o público tem a oportunidade de debater com os jurados, atores e técnicos dos espetáculos. A diferença para as outras edições é que esta conta com a participação de grupos do Mato Grosso. O festival é itinerante e já esteve em cidades como Campo Grande, Aquidauana, Corimbá, Ponta Porã e Dourados, entre outras. Este domingo, o público sul-matogrossense poderá conferir duas peças convidadas do estado vizinho: Eu Chovo, Tu Choves, Ele Chove (Grupo Spirits) e Arlequim, Servidor de Dois Patrões (Cia. Faces de Teatro), às 10:00 e às 16:00, respectivamente. A cerimônia de premiação será realizada às 18:00.

 

As Meninas encerram sua primeira temporada em São Paulo

O espetáculo As Meninas, dirigido por Yara de Novaes e adaptado da obra de Lygia Fagundes Telles por Maria Adelaide Amaral, terá a sua última apresentação hoje, às 18:00, no Teatro Eva Herz, em São Paulo. A peça, que concorre ao Prêmio Melhores de 2009, pelo Guia da Folha de SP, está ambientada no final dos anos 60 e conta com as atuações de Clarissa Rockenbach (Lorena), Silvia Lourenço (Lião) e Luciana Brites (Ana Clara) como três jovens que moram em um pensionato de freiras e cujas vidas seguem rumos diferentes. Enquanto a primeira tem interesses característicos da aristocracia da época, Lião sofre por causa do namorado preso e torturado político, e a última mergulha de cabeça no mundo das drogas. O Teatro Eva Herz fica na Livraria Cultura (Conjunto Nacional, avenida Paulista, 2073, Metrô Consolação). Os ingressos custam R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia). Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 3170-4059.

 

Amok Teatro apresentará peça sobre o conflito no Oriente Médio

O grupo carioca Amok Teatro fará quatro apresentações do espetáculo O Dragão, no Teatro Cacilda Becker (Rua Tito, 295, Vila Romana; telefone: 3864-4513), a partir desta quinta-feira (17). A peça, que está baseada em depoimentos reais sobre os conflitos no Oriente Médio, mostra o impacto causado pela violência entre israelenses e palestinos. A dor e os horrores da guerra são apresentados através de quatro relatos narrados e interpretados pelos atores Stephane Brodt, Fabianna de Mello e Souza, Thiago Guerrante e Kely Brito. A direção é de Ana Teixeira, que também escreveu o texto em parceria com Brodt, e as músicas são executadas ao vivo, com instrumentos típicos da cultural oriental. A temporada paulista terá apenas quatro sessões, nos dias 17, 18 e 19, às 21:00, e no dia 20 (19:00), com ingressos a R$ 10.

 

O diretor argentino teve um ano cheio de trabalho e já prepara novas montagens para 2010 I Foto: Arquivo

 

Martín Marcou: "Quero forçar minha própria imaginação e a do espectador"

Terça-feira, 08.12.2009 I Esta matéria em espanhol I Todas as entrevistas

 

Brillosa (Brilhosa), Lamevulva (Lambe Vulva), Tortita de Manteca (Tortinha de Manteiga): três peças que têm em comum a exploração do universo feminino, pela visão de um mesmo autor. Todas foram apresentadas em diferentes cenários em 2009, que tem sido um ano intenso na história do Teatro Crudo (algo como Teatro Cru), a companhia criada há três anos pelo ator, dramaturgo e diretor argentino Martín Marcou.

 

Nascido em Comandante Luis Piedra Buena, uma pequena localidade da província de Santa Cruz, Marcou demonstrou desde os cinco anos sua vocação para a direção teatral, pois passava as tardes de sua infância montando peças na praça de sua cidade, como revelou em uma entrevista para a Revista Afuera. Enquanto alguns de seus amigos atuavam, outros se aproximavam para olhar, antecipando o que viria a acontecer anos depois.

 

Já na capital, o artista ingressou no Instituto Universitário Nacional da Arte (IUNA), onde cursou atuação, e na Escola Buenos Aires Comunicação (BAC), fazendo estudos de direção e produção em cinema e televisão. Com mais de quinze anos de carreira, várias montagens realizadas e apresentações feitas dentro e fora da Argentina, o diretor vem se firmando como um dos mais transgressores da cena teatral portenha, assumindo riscos tanto na temática como na mise-en-scène de suas peças.

 

Hoje Marcou dirige uma equipe de pouco mais de dez pessoas, entre atores e técnicos, alguns deles integrantes do grupo desde sua fundação, em 2006. Nesta entrevista concedida em novembro para o ALDEIA CULTURAL, o diretor realiza um breve balanço dos três anos de existência de sua companhia, comenta a situação atual do teatro independente argentino e fala sobre seus planos nos palcos e em outras áreas.

 

Três momentos do Teatro Crudo em 2009

 

 

 

 

 

 

 

Tortita de Manteca (Tortinha de Manteiga)

Estreada em junho de 2008, a peça foi definida por Marcou como um melodrama homossexual sobre o universo lésbico. Valeria Actis e Checha Amorosi interpretam duas mulheres que se reencontram, mostrando a dificuldade de suportar o abandono e as consequências que acarretam os vínculos.

 

 

Lame Vulva (Lambe Vulva)

Interessado em explorar o tema da violência doméstica, o diretor estreou em setembro do ano passado uma peça que parte da premissa de que uma mulher pode, assim como um homem, se transformar em carrasco. Além de Amorosi, Lilian Fittipaldi e Javier Rosón formaram o elenco.

 

 

Brillosa (Brilhosa)

No espetáculo —montado este ano e cuja temporada conclui na quinta—, seis atrizes levam para cena um relato que fala dos desejos, das frustrações e das aparências, e sobre os limites de cada um, assim como as eleições que se fazem na vida, com suas respectivas consequências.

 

 

 

Entrevista I Martín Marcou, ator, dramaturgo e diretor

 

"Estar rodeado de atrizes é como continuar rodeado daquele afeto que recebi quando era criança".

"É necessário e legítimo que cada um se expresse do modo que precisa, mas lamentavelmente não há público para todos".

"O público sempre recebe o trabalho de maneira diferente. Cada apresentação é única nesse sentido".

"Quando se batem portas e elas não se abrem, o melhor é não esperar que as coisas cheguem, e sim sair em sua busca, sem ter medo de errar".
 

 

ALDEIA CULTURAL (AC). Há três anos você fundou o Teatro Crudo, do qual é diretor. ¿Que balanço faz deste período?
MARTÍN MARCOU (MM). O balanço é positivo, o que não significa, em absoluto, que a gente não tenha atravessado momentos de inquietação, de cansaço, de desânimo. Tivemos experiências intensas e gratificantes. E também períodos onde a coisa ficou mais complicada. O grupo surgiu em 2006 a partir da minha necessidade imperiosa de autosustentar um espaço de experimentação. Quando se batem portas e elas não se abrem, quando você tem vontade de falar mas não encontra apoio, o melhor é não esperar que as coisas cheguem, e sim sair em sua busca, sem ter medo de errar.

AC. Atualmente está em cartaz Brillosa, sua mais recente criação. Conte um pouco sobre a peça e a sua percepção sobre ela, ao vê-la em cena.
MM. Brillosa é uma peça simples e estranha ao mesmo tempo. É muito pós-moderna, imperfeita e fragmentada em sua construção. Que ela funcione depende da intensidade e de quão hilárias e relaxadas estejam as atrizes na hora da apresentação. É uma permissão dentro do que eu vinha fazendo até agora. Ela se edificou em base de fragmentos de momentos criados pelas atrizes nos ensaios. Estas situações de estados foram atravessadas por textos soltos, que escrevi sem a intenção de construir uma história. A mistura entre o que as atrizes trazem consigo e são na hora do trabalho, combinado com algumas das minhas obsessões, deram como resultado um conjunto que é cruel e divertido ao mesmo tempo. Como resultado do processo criativo, apareceu um primeiro corte, uma primeira versão, que com o passo das apresentações vai mutando, se ajustando em sua própria forma e dinâmica. O desafio é que em apenas dez apresentações a peça possa alcançar uma forma que termine englobando todo mundo. Brillosa é uma edição grupal progressiva, que acontece sessão a sessão. A peça são as atrizes falando de assuntos como a solidão, a morte, o desprezo, o vazio, o desamor e principalmente das suas inseguranças e das minhas. O público tem um lugar essencial na proposta, porque é o que constrói o relato com o seu olhar. A peça também ironiza bastante certos recursos que 'alguns criadores' utilizamos neste tempo, para mostrar nossos olhares. Interessa-me revelar o uso e abuso que se faz às vezes do efeito, dos gritos, das brigas e como o capricho e a arbitrariedade na hora de montar uma peça têm seu protagonismo. Eu me divirto com os bastidores, evidenciar as falhas, os erros e acidentes, que as atrizes dialoguem com o público de forma desorganizada, rir à minha maneira do uso da nudez, das coreografias e da tecnologia digital, entre outros elementos; me questionar em cena por que e para que tanta maranha de coisas e elementos decorativos e o que acontece com a história. Eu me autorizo a me divertir com isso, e as atrizes são cúmplices desse jogo, o acompanham muito bem.

AC. Desmesura Vaginal, Lame Vulva, Tortita de Manteca... Todas elas são peças que falam de mulheres. De onde vem esse interesse pelo universo feminino, que sempre está retratado em seus espetáculos?
MM. Sempre me perguntam sobre isso. E cada vez que isso acontece, eu penso outra vez a respeito. Acredito que meu interesse pelo universo feminino anda de mãos dadas com a minha história pessoal. Minha mãe, minha avó, minhas tias, minha prima, minha irmã, minhas amigas de infância, minhas professoras, as senhoras da cidade onde eu me criei tiveram uma forte e determinante presença na minha vida. Estar rodeado de atrizes é como continuar rodeado daquele afeto que recebi quando era criança, dessa atenção especial que eu construo em grande parte minha identidade. Ao mesmo tempo a mulher como figura, como instituição, como ser político merece de mim o maior dos respeitos. Sou
Clique na imagem para ampliá-lafeliz entre as mulheres, estou com elas pro que der e vier.

AC. ¿Como você vê o panorama atual do teatro independente argentino e por que você acredita que ele é tão forte e prolífico, como talvez em nenhum outro país do continente?
MM. É uma pergunta complexa. Além de fazer teatro, e de ler teatro, eu costumo ver muitas peças. É um bom exercício para ver aonde você está situado. Acho que tem coisas muito boas e também das outras, como acontece sempre. A proliferação de grupos tem sua coisa positiva, que está ligada à liberdade que temos de criar, mas às vezes devido a essa liberdade, e com a vontade de fazer, se abre mão da qualidade das propostas. É necessário e legítimo que cada um se expresse do modo que precisa, mas lamentavelmente não há público para todos. Em todo caso teríamos que rever para onde apontamos, como criar novos públicos que sustentem a todos os que fazemos teatro. Criar um lugar para si, um espaço no teatro independente não é fácil. É verdade que na Argentina se faz teatro em locais abandonados, em galpões, em fábricas, em depósitos, e obviamente em espaços preparados especialmente para esse fim, mas há muitos grupos satélites, que fazem só um trabalho e logo se desmontam, e outros, onde me incluo, nos quais priorizamos a investigação, e que lutamos criativamente contra a falta de produção. Interessa-me buscar novas linguagens, forçar minha própria imaginação e a do espectador, eu gosto de trabalhar de maneira independente e democrática, onde as funções participativas nutram a proposta de inventiva, engenho e impulsos transformadores.


AC. Você viajou com seus espetáculos para festivais na Argentina e no exterior. ¿Percebe diferenças entre o público bonaerense e o de outros lugares na hora de receber sua obra ou as reações são parecidas?

MM. O público sempre recebe o trabalho de maneira diferente. Cada apresentação é única nesse sentido. Inclusive em Buenos Aires, na mesma sala, com a mesma peça. De um fim de semana pro outro, você pode apreciar grandes diferenças. Nós fomos pra muitos lugares com nossas peças, atuamos em um bosque, em uma igreja, em povoado indígena, em uma penitenciária de segurança máxima, ao ar livre e em lugares mais tradicionais, e recebemos leituras diferentes sobre um mesmo trabalho. A multiplicidade de olhares, de sensações, de estados pelos quais atravessa o público dá um novo significado todo o tempo ao nosso trabalho, o nutre, lhe dá outro sentido.


AC. Você estudou roteiro e é formado em direção e produção de cinema e televisão. Em algum momento, ¿pensa dirigir ou escrever trabalhos também para o cinema, sejam curtas ou longametragens?
MM. Tenho roteiros e muitas ideias. E com a questão digital, sei que agora é mais factível fazer um filme. Não digo fácil, mas não é impossível, mas ainda não senti essa forte necessidade. Eu gostaria primeiro de atuar no cinema, é um sonho. Um desejo que tenho muito presente. E acredito que isso do cinema vai chegar como consequência e preponderância de trabalho. Não sei em quanto tempo, mas me vejo fazendo cinema como ator e como diretor de meus próprios filmes em alguns anos.


AC. ¿Quais são os seus projetos para o próximo ano? ¿Você está trabalhando em novos textos para levar ao palco?

MM. Tenho a ideia de trabalhar com duas peças. Por um lado um espetáculo que se chama Te Estaba Esperando, que fala sobre como o preconceito consigo mesmo pode operar em todos os níveis como nosso pior aliado. Também penso em montar uma peça com temática gay, protagonizada por homens, onde vou abordar assuntos como a busca de sexo casual na rua e a traição. Vou viajar para vários festivais com minhas peças como todos os anos, e organizarei dois ciclos de teatro. 

 

Fotos: arquivo do diretor e blog do Teatro Crudo (baixar foto central).

 

O filme do gaúcho Tiaraju Aronovich é uma complexa fábula urbana em tempos modernos I Foto: Site oficial

 

Sem Fio apresenta várias histórias de uma geração que vive em meio ao caos

Segunda-feira, 30.11.2009 I Esta matéria em espanhol

 

Está em cartaz em São Paulo o longa-metragem Sem Fio (ver trailer), apresentado por seus produtores como o retrato de uma geração que cresceu nos anos 90, em uma era de AIDS, drogas, explosão midiática, globalização, MTV e música eletrônica; são jovens que vivem conectados por seus celulares, mas se revelam incapazes de manter um relacionamento humano real.
 

O longa, dirigido por Tiaraju Aronovich, mostra várias histórias rápidas e caóticas, que se cruzam formando um complexo mosaico urbano: Castro, um mentiroso viciado em cocaína, é casado com Marisa, uma mulher insatisfeita e entediada com sua rotina de trabalho; Carlos, neurótico e com sérios problemas de auto-estima, e Patrícia, uma intelectualoide com discursos filosóficos confusos e inconsistentes, formam um casal que quer viver junto, mas continuar distante; Helô é uma patricinha que se apaixona por Juliano, um ladrão de celulares e campeão de torneios clandestinos de vale-tudo.

 

Todos esses personagens (e muitos outros) se cruzam e se desentendem, pelo telefone e fora dele, numa intrincada teia de relacionamentos mal-sucedidos, permeados pela hipocrisia e pela mentira. Não há tecnologia que diminua a influência da miséria humana nas vidas dessas pessoas, que parecem perdidas em meio ao caos e ao vertiginoso ritmo de vida em uma grande metrópole.

 

Sem Fio, que conta com as atuações de Marcos 'Nasi' Valladão, Amanda Maya, Leopoldo Pacheco, Junior de França, Marília Moreira, Renan Rovida, Tatiana Grigolin, Marcos Machado, Luís Panini, Luciana Stipp, Polyana Lott e Mayara Lepre, entre outros, vem recebendo boas críticas desde que foi lançado. O cineasta argentino Ezio Massa, por exemplo, garante que nunca viu 'um filme com esse ritmo na América Latina', enquanto o ator Matheus Nachtergaele o definiu como ' um dos projetos mais ousados' que já viu.

 

Com um roteiro escrito por Vaner Micalopulos, Nill Santos e pelo próprio diretor — que também atua no filme — Sem Fio é o quarto longa-metragem de Aronovich, que com apenas 29 anos (nasceu em Porto Alegre em 1980) já tem em seu currículum um média, dez curtas e 50 videoclipes. Além de se desempenhar como ator, produtor e realizador, o cineasta gaúcho é também músico e compositor, assinando ao lado de Micalopulos a trilha sonora do projeto.

 

O dramaturgo escreveu alguns dos textos mais importantes da história do teatro brasileiro I Foto: Site oficial

 

Morte do autor teatral Plínio Marcos completa dez anos nesta quinta-feira

Quinta-feira, 19.11.2009 I Com informação do site oficial

 

Nesta quinta-feira se completam dez anos da morte do escritor, dramaturgo, diretor, ator e jornalista santista Plínio Marcos, autor de algumas das peças mais conhecidas do teatro brasileiro, como Barrela, Dois Perdidos Numa Noite Suja, Navalha Na Carne, Quando as Máquinas Param, O Abajur Lilás e Querô, Uma Reportagem Maldita, entre outras.

 

Nascido no seio de uma família modesta em 29 de setembro de 1935, Plínio nunca gostou de estudar, levando quase dez anos para concluir o primário. Ao sair da escola, tornou-se funileiro, embora seu grande sonho fosse ser jogador de futebol — chegou inclusive a jogar no time juvenil de clubes como a Portuguesa Santista e o Jabaquara. Posteriormente, virou palhaço de circo (o Frajola), segundo ele porque queria namorar uma moça que trabalhava ali; fez parte da Companhia Santista de Teatro de Variedades e foi humorista das rádios Atlântico e Cacique e apresentador da TV-5, todas de sua cidade natal, onde passou a ser bastante conhecido e popular.

 

Em 1958, conheceu a famosa escritora e jornalista Patrícia Galvão, a Pagu, que teve influência decisiva em seu envolvimento com o teatro amador. Foi também naquele ano que ficou chocado com um caso ocorrido em Santos e que o inspirou a escrever Barrela: preso por um pequeno crime, um garoto terminou sendo currado na cadeia. Ao sair, dois dias depois, matou quatro das pessoas que estavam com ele na cela. "Juro por essa luz que me ilumina que até então nunca havia me ocorrido escrever uma peça, pois eu não conhecia as grandes peças da dramaturgia nacional, nem universal. Mas o caso do garoto me comoveu tanto, que eu, depois de andar uns tempos atormentado com a história, a despejei no papel", contou anos depois.

 

Quando leu o texto de Barrela, Pagu considerou que seus diálogos eram tão poderosos quanto os de Nélson Rodrigues. No entanto, a montagem da peça foi liberada para apenas uma apresentação, ficando depois proibida pela censura durante 21 anos. Embora só se falasse dela no dia seguinte à sessão, o seguinte espetáculo do autor foi um grande fracasso, o que não abateu sua convicção de continuar no teatro.

 

Nos anos 60, já instalado desde o início da década na capital paulista e trabalhando em várias funções na TV Tupi, Plínio escreveu suas peças mais importantes. Primeiro, Dois Perdidos Numa Noite Suja, em 1966, e, no ano seguinte, Navalha Na Carne, esta última montada com ajuda financeira e colaboração de amigos e funcionários da emissora. No Rio de Janeiro, o espetáculo foi proibido pelo Exército, que cercou o teatro. A solução foi despistar os militares e distribuir senhas para o público com o endereço de uma casa da atriz Tônia Carrero, que se encontrava entre os presentes. O lugar ficou lotado para ver a apresentação.

 

Os textos do dramaturgo continuaram sendo censurados, um a um, por ser considerados 'pornográficos e subversivos', especialmente pela 'linguagem chula' empregada. Sobre isto, o autor disse em 1973 que escrevia como se falava nos mercados, nas cadeias e nos puteiros. "A solidão, a miséria, nada me abateu, nem me desviou do meu caminho de crítico da sociedade, de repórter incômodo e até provocador. Eu estou no campo. Não corro. Não saio. E pago qualquer preço pela pátria do meu povo", afirmou.

 

Plínio Marcos morreu aos 64 anos, em São Paulo, por falência múltipla dos órgãos, em decorrência de um derrame. Traduzido para vários idiomas e com sua obra estudada em universidades do Brasil e do exterior, o escritor recebeu diversos prêmios ao longo de sua carreira e até hoje é um dos autores com maior número de textos levados ao palco no teatro brasileiro.

 

Silvia Lourenço, Clarissa Rockenbach e Luciana Brites atuam em As Meninas I Foto: Ronaldo Aguiar/Divulgação

 

Romance da escritora Lygia Fagundes Telles ganha versão para os palcos

Segunda-feira, 09.11.2009

 

O espetáculo As Meninas, adaptado do premiado romance homônimo de Lygia Fagundes Telles, está em cartaz em São Paulo, com apresentações todos os sábados e domingos, até o dia 13 de dezembro. Protagonizada por Silvia Lourenço, Clarissa Rockenbach e Luciana Brites, a peça é ambientada na São Paulo do final dos anos 60 e apresenta três jovens que moram em um pensionato de freiras. 

 

Foi de Clarissa Rockenbach a ideia de levar ao palco a história narrada no livro. Para isso, entraram em cena Maria Adelaide Amaral e Fernando Padilha: enquanto a primeira se encarregou de adaptar a novela e sintetizar o espírito da obra de 300 páginas nos 80 minutos de duração do espetáculo, o segundo se uniu à atriz para produzi-lo. A direção ficou por conta de Yara de Novaes, que já esteve a frente de peças como A Serpente e Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues, além de clássicos de Shakespeare e Dostoiévski.

 

Ao lado de Clarissa, que interpreta a sonhadora e romântica Lorena, estão Silvia Lourenço — dos filmes Contra Todos e Quanto Dura o Amor? e que encarna a idealista guerrilheira Lião — e Luciana Brites, que pôde ser vista recentemente em Canção de Baal e é também dançarina e coreógrafa, no papel de Ana Clara, uma modelo com sérios problemas existenciais. Completam o elenco Clarisse Abujamra (Mãezinha), Tuna Dwek (Irmã Priscila) e Julio Machado, que se reveza na pele dos personagens Max, Guga e M.N.

 

Lorena, Lião e Ana Clara são as narradoras de suas próprias histórias, que seguem cursos diferentes. Se a primeira tem interesses característicos da aristocracia da época, Lia sofre por causa do namorado preso e torturado político, decidindo se juntar à luta armada contra a ditadura. Já Ana Clara mergulha de cabeça no universo das drogas, ao mesmo tempo em que se divide entre o noivo rico e o amante traficante.

 

Como parte da preparação para a peça e com o objetivo de que as atrizes conhecessem melhor os personagens representados nela, Clarissa, Luciana e Silvia se encontraram com a autora do livro, lançado em 1973, no auge da repressão política no Brasil. A escritora, aliás, aprovou a adaptação de sua obra e o trabalho da diretora e do elenco. "Esse espetáculo traduz de uma forma linda o meu romance e a história dessas meninas", avalia.

 

A peça, cuja classificação etária é de 14 anos, é apresentada no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura (Conjunto Nacional, avenida Paulista, 2073, Metrô Consolação), aos sábados (21:00) e domingos (18:00). Os ingressos custam R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia). Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 3170-4059.

 

 

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