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O assassinato de Araceli chocou o Brasil e foi tema de dois livros e um documentário I Foto extraída do Orkut

 

A trágica história da menina Araceli: um crime bárbaro e para sempre impune

Quarta-feira, 18.05.2011 I Esta matéria em espanhol

 

Há exatamente 38 anos, a menina Araceli Cabrera Sanches Crespo era assassinada em Vitória, Espírito Santo, em um dos mais brutais crimes da história do Brasil. O corpo, desfigurado e com marcas de tortura e abuso sexual, foi encontrado quase uma semana depois, e a data de sua morte tornou-se Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, através de lei sancionada pelo Congresso Nacional em 2000.

 

A data foi escolhida pela brutalidade com que o assassinato foi cometido. A menina, que estava próxima a completar nove anos, foi espancada, estuprada e drogada, e teve os mamilos e a vagina dilacerados a dentadas. Seu corpo foi encontrado em um terreno baldio, queimado e desfigurado com ácido, para dificultar sua identificação. Seus algozes pertenciam a famílias tradicionais e muito influentes no estado, razão pela qual tanto a Justiça como a Polícia foram negligentes e, inclusive, corruptas.

 

Araceli, nascida em 2 de julho de 1964 em Vitória, e morta em 1973, com apenas oito anos e dez meses de vida, era a segunda filha do eletricista Gabriel Crespo e da boliviana Lola Cabrera, na época radicada no Brasil. A garota morava com os pais e com o irmão maior, Carlinhos, em uma casa modesta da cidade de Serra, vizinha da capital capixaba, em uma rua que nesse tempo tinha o nome de São Paulo, mas hoje chama-se Rua Araceli Cabrera Crespo, em homenagem a menina.

 

O assassinato de Araceli, que nunca foi esclarecido e cujos culpados jamais foram punidos, estremeceu a população de Vitória, gerou indignação nacional e foi tema de várias publicações no jornalismo e na literatura. A mais famosa delas foi o livro "Araceli, Meu Amor", de José Louzeiro, lançado em 1975. Trinta anos depois, foi a vez dos então estudantes Tatiana Beling e Diego Herzog realizarem o curta-metragem Caso Araceli, A Cobertura da Imprensa, no qual enfocavam o tratamento dado pela mídia ao caso.

 

Cronologia do crime

 

No dia 18 de maio de 1973, Araceli saiu mais cedo da escola, a pedido da mãe, que escrevera um bilhete para a professora. A menina se dirigiu então a um edifício levando um envelope, que continha — sem que ela soubesse — drogas para ser entregues a um grupo de rapazes, filhos de famílias ricas e importantes da cidade e que eram conhecidos por seu gosto em realizar orgias regadas a narcóticos, álcool e sexo. 

 

Ao chegar ao lugar indicado por Lola, que era quem provinha de drogas aos jovens, Araceli se deparou com os rapazes, que já se encontravam sob os efeitos da cocaína. Estes a atacaram e a mataram com requintes de crueldade, deslocando seu queixo com socos e lacerando a dentadas seus mamilos, parte da barriga e sua vagina. Segundo uma testemunha, antiga amante de um dos envolvidos, Araceli foi violentada e dopada com uma forte dose de LSD, à qual não resistiu; exames periciais constataram depois que a menina foi também asfixiada.

 

O corpo da garota foi encontrado nu e desfigurado, seis dias depois do crime, em um terreno baldio. Antes, o cadáver havia sido levado para o bar de Jorge Michelini — a quem supostamente a droga estava dirigida, e cujo sobrinho, Dante, estaria envolvido no crime — e deixado por vários dias no freezer do lugar, localizado em uma movimentada rua da cidade. Tudo isto foi feito sem nenhum cuidado em evitar testemunhas, tamanha a certeza da impunidade dos assassinos e seus cúmplices. Finalmente, um ácido corrosivo foi jogado sobre os restos mortais da menina para dificultar sua identificação.

 

Apesar de Gabriel Crespo ter reconhecido o corpo da filha por um sinal de nascença, a certeza veio em um dia em que ele levou o cachorrinho de estimação da menina, Radar, ao Instituto Médico Legal (IML). Ao chegar ao local, o animal — que tinha recebido esse nome porque sempre a localizava — se dirigiu imediatamente à geladeira e passou a arranhar a gaveta em que se encontrava o cadáver de sua dona. Este permaneceria ainda dois anos e meio no IML, antes de ser enviado para uma autópsia no Rio de Janeiro e posteriormente sepultado, em 1976.

 

Os principais suspeitos do crime foram Paulo Constanteen Helal (o Paulinho) e Dante Michelini Júnior (o Dantinho): o primeiro, filho de um latifundiário membro da maçonaria capixaba; e o segundo, herdeiro de um rico exportador de café. De acordo com versões não confirmadas, ambos organizavam festas nas quais se drogavam e violentavam menores em apartamentos mantidos unicamente para esse fim. Lola, que era irmã de traficantes de Santa Cruz de la Sierra — para onde se mudou anos depois, deixando para trás marido e filho — havia utilizado a filha como 'mula', talvez sem intuir seu destino.

 

Embora houvesse testemunhas contra os dois jovens, Paulinho e Dantinho foram absolvidos em um último julgamento, em 1991, e atualmente nada mais pode ser feito, já que o crime prescreveu. Segundo Louzeiro, mais de dez pessoas que poderiam ajudar a desvendar o caso foram mortas, entre elas o sargento José Homero Dias, assassinado com um tiro nas costas, quando estava próximo a finalizar as investigações. Ainda de acordo com o escritor, os acusados tornaram-se "pais de família católicos, senhores acima de qualquer suspeita" e suas famílias continuam "donas do Espírito Santo" até hoje, quase quatro décadas depois do assassinato que chocou o Brasil. 


O curta-metragem

 

Em 2005, dois estudantes do curso de Rádio e TV em Vitória decidiram realizar um documentário sobre o crime como trabalho final de graduação. No curta-metragem Caso Araceli, A Cobertura da Imprensa, Tatiana Beling (diretora) e Diego Herzog (produtor) abordaram o comportamento dos meios de comunicação da época com relação às investigações, através de várias entrevistas e depoimentos, principalmente de jornalistas.

 

A ideia do curta, que recebeu quatro prêmios, entre eles o de melhor documentário no 1º Festival de Cinema de Colatina, surgiu após Beling ter lido o livro de Louzeiro. No blog da produção do vídeo, ela conta que, além de jornalistas, tentou entrevistar sem sucesso os acusados do brutal assassinato. "Ligamos para um dos suspeitos do crime, Paulo Helal, e como era de se prever, ele desligou o telefone na nossa cara", lamenta.

 

A diretora lembra também que o juiz que absolveu os indiciados a chamou para ir à sua casa, sem câmeras, para uma conversa 'em particular', uma vez que os estudantes estariam 'mexendo em um vespeiro'. Ainda assim, Beling garante não ter certeza sobre a identidade dos assassinos, já que vários depoimentos são contraditórios, revelando como o sensacionalismo e a ânsia por vender jornais pautou a conduta de muitos repórteres na época.

 

Herzog compartilha da opinião de sua companheira de trabalho e considera que a imprensa realizou uma cobertura cheia de falhas, como publicar fotos do corpo de Araceli e notícias sem confirmação de alguma fonte oficial. O produtor acredita que o crime deixou uma lição que deve ser assimilada. "O mais importante é o valor simbólico que esse caso representa, devemos atribuir a ele um caráter pedagógico para que os mesmos erros não voltem a ser cometidos", reflete. 

 

Em breve entrevista, os dois realizadores contam alguns detalhes do documentário — que foi aprovado com a nota máxima na universidade —, criticam o comportamento da imprensa e comentam sobre as dificuldades de concretizar o curta-metragem, produzido com apenas 700 reais, bancados por eles próprios. 

 

Com informação de Crimes Famosos, Dossiê Pedofilia e Wikipédia.

Documentário de Tatiana Beling: Parte 1 I Parte 2 I Parte 3 I Parte 4

Mais informações: Blog da produção I Canal sobre o caso no YouTube 

Orkut: Comunidade de debate I Perfil com fotos e informações

Outros trabalhos de Diego Herzog: Canal no YouTube I Canal no Vimeo

 

Tatiana Beling I Diretora do curta-metragem

Caso Araceli, A Cobertura da Imprensa

"Tudo o que aconteceu não foi feito apenas por duas pessoas"


ALDEIA CULTURAL (AC). O assassinato de Araceli é um dos crimes mais conhecidos da história do Espírito Santo e até hoje não foi esclarecido. O que levou vocês a realizarem o curta-metragem?
TATIANA BELING (TB). Estávamos no final do curso de Rádio e TV e queríamos fazer um documentário sobre o caso, depois que li o livro "Araceli, Meu Amor", do José Louzeiro. O nosso orientador sugeriu que mudássemos, fazendo um documentário apenas sobre a cobertura na imprensa no caso.


AC. E depois de todos os depoimentos colhidos, como você avalia a cobertura da mídia na época para o caso?
TB. O que eu avalio é que não mudou nada daquela época pra hoje. Vamos relembrar o caso da Escola Base em São Paulo. Os donos da escola foram acusados injustamente, mas até a justiça provar isso o sensacionalismo falou mais alto e não se falava em outra coisa. E o jornalista gosta muito de acusar e sacrificar um indiciado, fazendo matérias de páginas inteiras, mas quando é para publicar que a pessoa foi inocentada colocam apenas uma nota. O sensacionalismo, o vender jornal, o ganhar dinheiro sempre fala mais alto nessas horas.


AC. Frequentemente se atribui a autoria do crime a Paulo Helal e Dante Michelini, que não concederam entrevista para o curta. Na sua opinião, é possível afirmar que ambos estiveram envolvidos? Você tem alguma versão para o que aconteceu?
TB. Falando apenas por mim, não acho que o Paulo Helal teve alguma responsabilidade no assassinato em si. A partir de várias entrevistas que fiz (não só as que foram para o documentário), eu acho que a função dele no crime foi apenas desaparecer com o corpo. O momento do crime, tudo o que aconteceu, não foi feito por apenas duas pessoas, acho que tem várias envolvidas, mas isso é uma suposição pessoal. Muitas pessoas que não foram citadas no processo, mas foram citadas pelas pessoas que entrevistei, estão envolvidas. Só prefiro não citar nomes, porque não acho correto acusar sem ter certeza, eu infelizmente não era nem nascida naquela época.

AC. Seis anos depois de ter rodado o documentário, quais são as suas lembranças das filmagens? Qual foi a maior dificuldade em realizá-lo e em que medida o curta modificou a sua visão sobre o caso?
TB. Uma das dificuldades que me marcaram foi a recusa de Paulo Helal em falar sobre o caso, ele desligou o telefone na nossa cara quando tocamos no assunto. Outro foi um juiz que absolveu os indiciados, nos chamando para ir na casa dele sem câmeras e sozinhos pra conversar em particular pois estávamos mexendo num vespeiro. Na época soou como ameaça, hoje já não sei. Mas as entrevistas em si foram muito produtivas e bem aproveitadas. Outro grande problema que tivemos foi um que é o mais comum para videomakers no Brasil: dinheiro. Gravamos nosso documentário com apenas 700 reais.

 

Diego Herzog I Produtor do curta-metragem

Caso Araceli, A Cobertura da Imprensa

"O curta me fez olhar o caso por uma outra perspectiva"

 

ALDEIA CULTURAL (AC). O assassinato de Araceli é um dos crimes mais conhecidos da história do Espírito Santo e até hoje não foi esclarecido. O que levou vocês a realizarem o curta-metragem?
DIEGO HERZOG (DH). Na época de escolher o tema do TCC [trabalho de conclusão de curso] a Tat estava lendo o livro "Araceli, Meu Amor", do José Louzeiro. Como seria muito difícil entrevistar os personagens envolvidos nesse crime (policiais, juízes, advogados, os acusados), alguns inclusive já faleceram, a mãe da Tat sugeriu que fizéssemos um recorte a partir do papel da imprensa na cobertura do caso.

AC. E depois de todos os depoimentos colhidos, como você avalia a cobertura da mídia na época para o caso?
DH. Até hoje é muito difícil fazer esse tipo de reportagem que envolve abuso sexual infantil e pedofilia. Jornalistas continuam cometendo erros como entrevistar a vítima fazendo com que ela reviva o trauma, por exemplo, imagine então na época em que o crime aconteceu, quando ainda não existia o Estatuto da Criança e do Adolescente. A partir dos depoimentos dos jornalistas podemos chegar a conclusão de que houve sensacionalismo por parte da imprensa: publicação de notícias sem confirmação de fonte oficial, notícias forjadas, publicação de fotos do corpo da menina. Seria um ótimo momento para a imprensa pegar ganchos em assuntos que estavam ligados ao crime, como tráfico de drogas e o aumento do uso dessas substâncias aqui no Espírito Santo, por exemplo, pedindo a opinião de psicólogos, assistentes sociais, antropólogos, juízes. Em vez disso preferiram seguir por uma linha de jornalismo sensorial e não informativo.

AC. Frequentemente se atribui a autoria do crime a Paulo Helal e Dante Michelini, que não concederam entrevista para o curta. Na sua opinião, é possível afirmar que ambos estiveram envolvidos? Você tem alguma versão para o que aconteceu?
DH. Não posso afirmar se eles estavam envolvidos no crime e nem era essa a intenção quando eu e Tat resolvemos fazer o documentário. Se a Justiça os inocentou o que adianta fazermos especulações quanto a culpabilidade de quem quer que seja? Mesmo se eles se confessassem culpados, o crime já prescreveu. Para mim o mais importante é o valor simbólico que esse caso representa, devemos atribuir a ele um caráter pedagógico para que os mesmos erros não voltem a ser cometidos.


AC. Seis anos depois de ter rodado o documentário, quais são as suas lembranças das filmagens? Qual foi a maior dificuldade em realizá-lo e em que medida o curta modificou a sua visão sobre o caso?
DH. A maioria dos jornalistas topou falar sem receio nenhum. Também tivemos uma boa ajuda da mãe da Tat, que foi durante anos professora do curso de jornalismo da UFES [Universidade Federal do Espírito Santo] e trabalhou com alguns dos jornalistas
entrevistados. Uma das maiores dificuldades foi dinheiro, ou melhor a falta dele. Éramos estudantes, não trabalhávamos, tivemos que contar com o apoio de nossos pais, o famoso 'paitrocínio' (risos). Tínhamos vontade de ir ao Rio de Janeiro entrevistar o José Louzeiro, contratar uma equipe maior, mas nosso orçamento não permitia. O curta me fez olhar o caso por uma outra perspectiva, o olhar da imprensa. Achei muito interessante, tive que ler muitos livros sobre jornalismo, e eu fazia Rádio e TV, isso foi muito enriquecedor para mim. Hoje eu trabalho como editor de vt em um telejornal da TV Gazeta, uma
emissora afiliada da Globo, e esse conhecimento teórico do mundo jornalístico me ajudou muito quando fui trabalhar nessa área.

 

Última foto: Tatiana Beling e Diego Herzog exibem seu trabalho I Cortesia de Diego Herzog

 

Marins atua ao lado de Jannete Tomiita em uma cena em que ela sai de dentro de um porco I Foto: Divulgação

 

Demônios e Maravilhas: o estranho mundo de José Mojica Marins I Parte 2 de 5

Quinta-feira, 17.06.2010 I Autor: Jorge A. Grajales I Tradução: Sergio Palacios

Originalmente publicado na revista Cinefagia, entre 18.09.2003 e 16.10.2003

Esta matéria em espanhol

O episódio com o vendedor de batatas não seria a única vez em que Marins teria aproximações com o mundo dos mortos. Anos mais tarde, aos quinze, quando passeava com um amigo seu, sua bicicleta se decompôs na frente do cemitério e, com horror, ambos viram como varias luzes resplandescentes se alçavam sobre as tumbas dos mortos. Este é um fenômeno conhecido como fogo fátuo, mas para os impressionáveis meninos eram as almas dos mortos que estabam dispostos a invadir o mundo. Dadas estas experiências e vivendo em um país impregnado com magia e misticismo, resultado da mistura de grupos raciais e religiosos, não é de estranhar que os filmes de José Mojica Marins, especialmente seus filmes de terror, reflitam um singular e rico folclore que não se parece a nada que se tenha filmado no país.

Ao fazer dez anos de idade, Mojica Marins pediu de presente uma câmera de 8 mm e com ela se preparou para dirigir seu primeiro filme, chamado O Juízo Final. Influenciado pelos quadrinhos de "Buck Rogers", "Flash Gordon" e outros títulos de ficção científica, assim como pelos sermões sobre o juízo final que escutava na igreja, este filme narrava como seres de outros planetas chegavam à Terra em féretros voadores para levar aqueles que eram bons, enquantos as pessoas más eram paralisadas e transformadas em vermes.

Assombrado pelas ideias do filho, o pai de Mojica Marins convidou vários de seus amigos, incluindo o sacerdote local, para a exibição do filme. Terminada a sessão, o padre recomendou tratamento psiquiátrico para o garoto e decidiu expulsá-lo das aulas dramáticas da igreja. Este seria o primeiro de vários incidentes que Marins teria com a Igreja. Mas o pequeno Mojica não desanimaria. Pelo contrário, já que continuou filmando uma grande quantidade de curtas em 16 mm, a maioria deles com temáticas de horror (alguns dos quais voltaria a filmar para a serie de televisão "Além, Muito Além do Além") e alguns outros que em certa medida retratavam a cotidianeidade e realidade de seu povo de classe operária, como Os Lugares Por Onde Eu Passei (sua segunda aventura fílmica, com duração de 20 minutos, que capturava em celuloide lugares e amigos de Vila Anastácio), Fantasia Cinematográfica (um breve documentário de 15 minutos que explora a magia do cinema a través das salas de exibição da Boca do Lixo) e Greve dos Vagabundos (sobre os mendigos que vão parar no palco de um importante evento cultural e que aproveitam a ocasião para pedir ao povo que dê oportunidades de trabalho aos mendigos, afirmando que a falta de cultura não é um defeito).

Estas aventuras fílmicas haviam preparado o ainda jovem Mojica a se lançar à direção de seu primeiro longa em 35 mm. Titulado Sentença de Deus, o projeto ficou inacabado devido a uma série de desgraças: a atriz principal se afogou em uma piscina, sua substituta morreu de tuberculose durante as filmagens, e uma terceira foi atropelada e perdeu uma perna. Mojica decidiu cancelar a produção definitivamente. Anos mais tarde conheceu uma escritora, Aldenoura de Sá Porto, e juntos converteram o roteiro em uma novela, que era vendida em espetáculos circenses onde se projetavam as cenas que chegaram a ser filmadas.

Seu seguinte projeto, No Auge do Desespero, foi também atingido pela desgraça; a filmagem teve que ser interrompida quando uma tempestade destruiu todo seu equipamento, incluindo a câmera. Seria apenas em 1959, quando contava com 23 anos de idade, que Marins realizaria seu primeiro longa-metragem completo: A Sina do Aventureiro, o primeiro faroeste brasileiro e o primeiro filme realizado em Cinemascope nesse país. O longa foi visto pela Igreja como um ataque a moral devido a uma cena em que duas mulheres eram vistas nuas (em uma distância de 100 metros da câmera) tomando banho em uma cascada, e foi aí que iniciou-se uma campanha para proibi-la, especialmente nas menores cidades do Brasil, onde a Igreja tinha mais poder.

Para não ter mais problemas com a Igreja, Marins decidiu fazer um filme que fosse do agrado desta. O resultado foi Meu Destino em Tuas Mãos, uma história sobre jovens perdidos que voltam ao caminho do bem graças a um sacerdorte. O filme foi um verdadeiro fracasso e seus produtores perderam dinheiro. Seu seguinte projeto, Geração Maldita, atravessava vários problemas de produção que desanimavam Mojica. Na noite do dia 15 de outubro de 1963, preocupado por todos esses problemas financeiros, agravados pelas dívidas geradas por publicar uma série de fotonovelas, que o haviam deixado em bancarrota e obrigado a se mudar com a família da sua esposa, Mojica teve um pesadelo. Ou uma visão. Nela, uma figura sem rosto e vestida completamente de preto o arrastava até uma caverna, onde contemplou uma gigantesca lápide com seu nome gravado nela, assim como a data de seu nascimento e a de sua morte, que se recusou a ver. Foi então que viu o rosto dessa sinistra figura de preto que não parava de rir de forma macabra e percebeu que era ele mesmo. A experiência o impressionou tanto que quando acordou já tinha a ideia e o título para um novo filme, e a trama e o personagem principal gravados em sua mente. Abandonando completamente o projeto de Geração Maldita, Marins se dedicou a reunir os fundos necessários para filmar À Meia-Noite Levarei Sua Alma, filme que teria sua estreia em 9 de novembro de 1964.

O filme em preto e branco se concentra em Zé do Caixão, o dono de uma funerária de um vilarejo pobre, conservador e profundamente católico. Em total contraste a eles, Zé é um homem abertamente ateu e blasfemo sem nenhum sentido da moral e ética que não seja a sua própria, e que desfruta de provocar a comunidade. Vestido sempre de preto e com unhas bastante longas, Zé está obcecado em ter um filho que continue seu legado e sua maneira de pensar. Infelizmente, Lenita
sua esposa não pode tê-los, então Zé presta atenção em Terezinha, que tem todos as condições para ser a mulher ideal que possa ter um filho seu. Mas ela é a noiva de Antônio, o único amigo verdadeiro de Zé. Isto não é algo que o detenha, de tal forma que depois de urdir um plano no qual assassina Lenita e Antônio, fica com o caminho livre para se aproximar de Terezinha. Ao resistir às investidas de Zé, a moça é estuprada por ele e se suicida, mas não sem antes amaldiçoá-lo e prometer arrastar sua alma ao inferno. Desiludido por sua morte, Zé continua buscando a mulher ideal que dê a luz ao seu filho. Esta aparece a véspera do Dia dos Mortos na forma de uma jovem e atraernte visitante que, assim como ele, tem uma visão ateia do mundo. Sem perder tempo, Zé se oferece para acompanhá-la a casa da tia a quem visita, localizada perto do cemitério local. No caminho eles se cruzam com uma velha bruxa, que adverte Zé que à meia-noite a maldição de Terezinha será cumprida…

Filmada em um pequeno set durante duas semanas, À Meia-Noite... se tornou um filme atípico no Brasil por várias razões. Não apenas é o primeiro filme de terror realizado na região, mas também uma com visão muito pessoal e atitude profundamente sacrílega carregada de imagens bastante explícitas e atrevidas para a época. E ainda que Marins não mostre grandes virtudes técnicas, o filme conta com momentos bem resolvidos, especialmente as cenas finais no cemitério e a procissão de mortos filmada em negativo. Outro ponto a seu favor é a atmosfera gerada ao longo de todo o filme e seus evocativos créditos iniciais, nos quais Zé do Caixão aparece recitando um monólogo sobre a vida, a morte e a religião, para depois abrir passo à velha cigana fazendo um sinal de advertência ao público sobre a natureza do filme, muito similar às introduções do Guardião da Cripta ou da Velha Bruxa nas histórias dos títulos de terror dos gibis como "Tales from the Crypt" ou "The Vault of Horror", que sem dúvida foram uma influência para Mojica Marins.

Apesar de suas atemorizantes cenas sem precedentes de sexo, violência e sadismo, o aspecto mais perturbador de todo o filme está na figura de Zé do Caixão, um vilão que
ainda que pareça contraditório é honesto e direto, crente de tudo o que diz e faz. De certa forma, é como o Zaratustra de Nietzsche: um homem além do bem e do mal, que acredita nos fatos e nas ações. Um verdadeiro existencialista. Zé sustenta que o propósito da vida é vivê-la, enquanto os habitantes da cidade vivem prisioneiros de suas próprias superstições e medos. Assim como a filosofia satanista proposta por Anton La Vey, se veste completamente de preto e protege as crianças, luta pela inocência e pureza, buscando sempre o filho perfeito através da mulher superior. E, no final das contas, quer fazer do mundo um lugar mais pacífico para morar, sendo sua filosofia não se importar que cem pessoas morram se um milhão estão seguras.

Talvez por isso Mojica não encontrou ninguém que quisesse encarnar o personagem e o terminou interpretando. Tomando de improviso a capa negra do cuidador do 'estudio' que estava envolvido com cerimônias de candomblé e aproveitando as unhas longas de seus polegares que havia deixado crescer desde que era criança, Mojica deu vida a Zé do Caixão, a quem complementou com uma cartola e um medalhão. Seria a solução mais simples que Mojica teria para esta produção cheia de problemas financeiros e na qual tudo parecia conspirar contra si: os atores se recusavam a trabalhar com as aranhas caranguejeiras e os técnicos diziam que era impossível construir o cenário em um estúdio tão pequeno. E quando não eram os criadores, era a polícia, que chegava atendendo as queixas dos vizinhos. Para terminar as filmagens, Mojica não teve mais remédio que vender tudo o que possuía: roupa, móveis, quadros, o carro da família e sua casa, pelo qual sua esposa teve que voltar a morar de novo na casa dos seus pais. E para finalizar, no último dia da produção, quando Mojica não dispunha mais de recursos para continuar, os atores não quiseram trabalhar devido ao tempo ruim. O diretor se enfureceu e os obrigou a terminar na mira de um revólver, o mesmo que utilizava no longa.

Mesmo com a censura de várias cenas exercida em algumas cidades pequenas, o filme se tornou um sucesso. Lamentavelmente, Marins nunca viu um centavo desse dinheiro, já que para terminar de pagar suas dívidas e levar comida para sua família, teve que vender todos os direitos do longa. Ao longo da sua vida, Marins se encontraria em situações similares, graças a sua obsessão em fazer cinema.

 

José Mojica Marins personifica o personagem Zé do Caixão no filme Encarnação do Demônio I Foto: screenshot

 

Demônios e Maravilhas: o estranho mundo de José Mojica Marins I Parte 1 de 5

Quinta-feira, 03.06.2010 I Autor: Jorge A. Grajales I Tradução: Sergio Palacios

Originalmente publicado na revista Cinefagia, entre 18.09.2003 e 16.10.2003

Esta matéria em espanhol

Se existe, é porque há uma razão para que exista. (Finis Hominis)

Brasil, 1964. Um golpe militar derrubou o governo tornando o clima cultural da região perigoso e gélido graças à censura e a repressão. Entretanto, nas ruas de São Paulo gestava-se um movimento cinematográfico underground que, tomando seu nome emprestado da Boca do Lixo paulistana, se conheceria como cinema do lixo. Conformada por intelectuais de esquerda e cineastas pertencentes ao pós-cinema novo, a proposta do cinema do lixo era ir contra as crescentes produções refinadas do cinema novo, colocando em seu lugar uma forma de fazer cinema que fosse barata, crua e provocante.

Contudo, alguns anos antes, um cineasta brasileiro já vinha realizando esse tipo de filmes: José Mojica Marins, o homem que praticamente foi o criador do cinema de horror no Brasil, artífice do personagem cinematográfico mais famoso dessa região, um coveiro ateísta chamado Zé do Caixão, que se tornaria um verdadeiro ícone da cultura popular brasileira. Descrito como uma mescla de Russ Meyer, Luis Buñuel e Mario Bava, o cinema de José Mojica Marins é muito estranho, mistura de surrealismo e expressionismo, nihilismo nietzcheano e culpa cristã, horror gótico e primitivismo terceiro-mundista. Mas se seu cinema ultrapassa os limites do estranho, sua vida o faz ainda mais.

Quando tinha três anos foi sequestrado por um grupo de ciganos. Aos 10, foi expulso da escola católica por filmar um curta em 8 mm no qual os bons eram levados ao céu em um caixão voador e os maus eram transformados em vermes. Antes de fazer 15 anos, Marins já tinha filmado 20 curtas e fundado seu próprio 'estúdio' em um galinheiro. Aos 17, teve que interromper seu primeiro longa devido às trágicas mortes de três atrizes que iriam interpretar o papel principal.

Durante a década de 60 dirigiu cinco das maiores bilheterias do país (e das quais não viu nenhum centavo), teve seus próprios programas de TV, quadrinhos, e gravou alguns discos relacionados com o personagem Zé do Caixão, do qual teve também produtos que iam desde aguardente até desodorantes ("Desodorantes Mistério: espanta qualquer odor"). Dirigiu faroestes, comédias musicais e pornochanchadas, gênero no qual teve a distinção de filmar a primeira cena entre uma mulher e um cachorro no Brasil. Passou um tempo na prisão, se candidatou ao Congresso como deputado, fundou sua própria igreja e sua escola de cinema e teve 23 filhos com sete mulheres diferentes. José Mojica Marins foi também o cineasta mais censurado e perseguido da história do Brasil e o único realmente independente em seu país.

Filho de pais espanhóis, José Mojica Marins nasceu em 1936 depois de uma gestação de onze meses, atraso ocasionado por uma condição irregular na barriga da sua mãe. Sendo seu pai toureiro e sua mãe cantora de tangos, a família vivia percorrendo várias cidades do Brasil, até que o roubo de seu filho por ciganos os levou a abandonar a vida errante e se assentar definitivamente no bairro de Vila Anastácio, em São Paulo. Ali, depois que a sociedade protetora de animais conseguiu que a festa fosse proibida no país, dedicaram todo seu tempo a administrar o cinema do bairro, chamado Santo Estêvão, que pertencia a um primo do Sr. Mojica, e para cujo fim tiveram que ir morar nele, atrás da tela de projeção. Foi lá onde, com pouca idade, Mojica Marins se interessaria pelas imagens em movimento.

Com a idade de 7 anos, Mojica começou a nutrir forte interesse nos quadrinhos (chegou a ter uma das maiores coleções dessa região) e nos fenônemos sobrenaturais, especialmente com aqueles relacionados à morte, graças a um acontecimento que o marcou para a vida toda. Conta ele que perto de onde morava havia uma quitanda de batatas cujo dono sempre contava relatos sobre a morte, sobre como as pessoas depois de morrer iam ao céu, onde havia muitos animais e aquelas podiam se comunicar com estes. Um dia, esse senhor morreu e toda a cidade foi ao funeral. Inconsolável, a viúva chorava e gemia dizendo que só os bons morriam enquanto os maus continuavam vivos. Seus filhos sugeriram então que todos rezassem para que seu pai voltasse, coisa que todos fizeram, inclusive o próprio Marins e três de seus amigos. Grande seria a surpresa para todos quando, durante suas orações, o corpo dentro do caixão começou a se mexer. Como se nada tivesse acontecido, o homem se levantou do féretro, ainda com o algodão na boca e nas fossas nasais, ao tempo em que todos os presentes fugiam, incluindo a esposa, a mãe, os filhos e o sacerdote. No lugar apenas permaneceram Mojica e seus três amigos, curiosos por saber o que havia ocorrido. Obviamente o homem não estava morto, mas sofria de catalepsia, algo que na época era totalmente desconhecido na região. No final, a esposa abandonou o homem, alegando que este não era seu marido, senão o mesmo demônio que havia se apossado dele. Ninguém mais retornou à quitanda para comprar batatas e ele teve que ir morar em outra cidade, mas os rumores acompanharam o comerciante e este acabou sendo enviado a um manicômio, onde morreu dois anos depois. Tais eventos marcariam Mojica para sempre.

 

A peça mostra como pessoas frágeis e sem personalidade podem chegar a ser perigosas I Foto: Renato Parada

 

Mário Bortolotto faz a estreia aberta do espetáculo Brutal no Parlapatões

Sexta-feira, 09.10.2009 I Esta matéria em espanhol

 

Depois de uma pre-estreia reservada apenas para convidados, chegou a hora do espetáculo Brutal, mais nova montagem do diretor e dramaturgo Mário Bortolotto, ser apresentado também para o público que assistir às sextas-feiras, à meia noite, ao Espaço Parlapatões. Durante a temporada, que se prolongará até 20 de novembro, um elenco composto por Carolina Manica, Érika Puga, Laerte Mello, Luciana Caruso, Maria Manoella, Martha Nowill e Walter Figueiredo levará ao palco um relato sobre como pessoas vazias podem ser perigosas por causa de sua fragilidade.

 

A peça, que conta ainda com a participação do ator Paulo César Peréio na voz em off, narra a história da seita Legião do Amor, cujo líder, Estevão, prega que está em permanente contato com Deus, por meio de forças da natureza. Assim, ele alicia garotas para sua seita, as quais geralmente não tem nenhum objetivo real na vida. No princípio, tudo parece inocente, mas Estevão é bem mais perigoso do que pode parecer.

 

Embora a montagem aborde o ódio racial e a discriminação, o autor deixa claro que sua real intenção com a peça é lançar um olhar para as pessoas sem destino, que apresentam uma personalidade frágil e inócua (ver texto abaixo). Bortolotto revela que pensou no fato de tantas pessoas procurarem uma igreja e seguirem fielmente um pastor totalmente desprovido de qualquer carisma. "O que eu quero que a plateia pergunte é: por que essas garotas estão seguindo esse cara? O que ele tem de especial? Eu não consigo perceber", diz.

 

A contundência do texto — uma característica sempre marcante no trabalho do autor de Nossa Vida Não Vale um Chevrolet e Uma Pilha de Pratos Na Cozinha — chamou a atenção das atrizes Carolina Manica e Luciana Caruso, que decidiram produzir o espetáculo. Para obter patrocínio, a saída que encontraram foi organizar uma exposição na qual artistas como Laerte, Lourenço Mutarelli, Daniel Galera e Marcelo Rubens Paiva doaram obras cuja venda foi revertida em favor da peça, dando origem a uma iniciativa que agora proporciona também a realização de outras montagens.

 

Veja mais imagens da peça capturadas por Renato Parada: Foto 1 I Foto 2 I Foto 3

 

Clique sobre a imagem para ampliá-laBRUTAL

Ficha técnica

Texto e Direção: Mário Bortolotto
Elenco: Carolina Manica, Érika Puga, Laerte Mello, Luciana Caruso,

Maria Manoella, Martha Nowill e Walter Figueiredo
Voz em off: Paulo César Pereio I Stand in: Helena Cerello
Figurino: Olívia Hansen I Sonoplastia e Iluminação: Mário Bortolotto
Operação de Luz: Mário Bortolotto I Op. de Som: Rodrigo Cordeiro
Produção: Luciana Caruso e Carolina Manica I Fotos: Renato Parada

Clique sobre a imagem para ampliá-laServiço
Estreia ao público: 9 de outubro de 2009, à meia-noite
Temporada: todas as sextas, até 20 de novembro de 2009

Horário: meia-noite
Teatro Espaço Parlapatões I Praça Franklin Roosevelt, 158
Ingressos: R$ 30,00 e 15,00 (meia) I Capacidade: 98 pessoas
Bilheteria: de terça a domingo, das 16:00 às 22:00

Ingresso Rápido: 4003-1212

Convênio de estacionamento na rua Nestor Pestana, 94
 

Carolina Manica, atriz e produtora

 

A exposição. "Essa exposição foi o start, o primeiro passo para levar adiante o projeto. Ela foi o grande patrocinador além de, também, ter contribuído muito na divulgação do projeto. Foram muitas pessoas envolvidas para que esse projeto pudesse acontecer, muitas pessoas querendo que o projeto desse certo e apostando. Desde os artistas aos compradores das obras. No início fiquei um pouco tímida com a ideia de pedir as doações aos artistas, ao mesmo tempo que eu acreditava nessa ideia maluca também muitas vezes parava para pensar e achava um pouco absurdo pedir um quadro do Laerte ou uma ilustração original do Mutarelli. Mas a forma como os artistas receberam a ideia foi tão generosa que isso acabou tomando uma proporção muito maior do que eu esperava. Nos últimos dias de montagem da exposição eu recebia artistas na galeria vindo doar suas obras por terem ouvido falar que estava acontecendo essa exposição. Foi demais. Acho que para mim como artista também foi muito importante poder realizar uma produção sem depender dos meios convencionais mas pelo apoio de outros artistas. Acredito que em tempos de crise temos que encontrar alternativas para que as coisas aconteçam e não esperar e reclamar da economia. A exposição também gerou um fruto que é a Festa Studio SP Incentiva. Começou com uma festa para o Brutal e foi uma parceria com a casa de shows. Uma vez por mês alguma produção carente é contemplada com uma festa e a bilheteria é revertida para a produção do espetáculo. Já fizemos cinco festas esse ano. Cada festa tem show de músicos parceiros do projeto que trocam seus cachês para ajudar o teatro. A próxima festa, no dia 26 de outubro, será para a produção da peça As Meninas da Loja, primeiro texto do Caco Galhardo para o teatro, e terá show da Banda Fábrica de Animais, da atriz e diretora Fernanda D'Umbra, e do músico Junio Barreto, além de discotecagem da atriz Chris Couto, o diretor e dramaturgo Mário Bortolotto e do desenhista Carcarah".

 

A peça. "Já conhecia esse texto do Mário Bortolotto há muito tempo e sempre foi um texto que me intrigou muito pela temática e pela forma como poderia ser executado no palco. É um texto forte que fala sobre racismo, fanatismo e preconceitos. A apatia dos personagens reflete muito uma época em que vivemos. Os jovens de hoje parecem estar anestesiados dentro de um esquema. A maior parte está acomodada e sem um ideal, tentando se agarrar a algo externo ou a alguém para encontrar um destino ou um objetivo de vida. Falta esse mergulho para você encontrar o que realmente você quer dizer ou saber de fato aquilo que você acredita e quais são suas opiniões sobre as coisas. As pessoas estão sempre esperando alguém que venha dizer algo que vai te 'salvar' ou te dar uma oportunidade para se sentir especial. Então enquanto não se encontra isso parece ser mais fácil partir para a briga ou ter preconceitos e culpar o outro. Acho que a peça fala muito sobre isso, sobre a igualdade e para mim isso foi muito importante na escolha. Não consigo acreditar que ainda exista preconceito nos dias de hoje, parece que o mundo está regredindo, uma sociedade cada vez mais careta, cheia de proibições, certo e errado e disputas".

 

Mário Bortolotto, autor e diretor

 

"É importante para mim explicar que neste texto a história da seita, ódio racial etc, servem apenas como pretexto para discutir o que eu acho muito mais importante que são as pessoas sem destino, com personalidades inócuas. Como um personagem diz em certo momento do texto : 'Pessoas vazias podem ser muito perigosas'. Todo o processo de violência que a peça acaba por desencadear provém do fato de estarmos lidando com personagens de personalidade extremamente frágil. Se na peça existissem pessoas com personalidade própria e com destino, toda violência poderia ter sido evitada. Fiquei pensando nesse lance de ter tantas pessoas que acabam procurando uma igreja e seguindo fielmente um pastor totalmente desprovido de qualquer coisa que possa ser chamada de carisma. Estou explicando isso porque em princípio a peça pode parecer que tem como mote principal a história da seita e do ódio racial que a seita prega. E é importante para mim também explicar por que eu optei pelo personagem principal não ser exatamente uma espécie de guru irrepreensível. O que eu quero que a plateia pergunte é: 'Por que essas garotas estão seguindo esse cara? O que ele tem de especial? Eu não consigo perceber'. É isso aí".

 

Soledad Ardaya em Di Buen Día a Papá

Um outro olhar ao cinema latino-americano I Parte 1: dez atrizes hispanas

Terça-feira, 26.05.2009 I Opinião I Autor: Sergio Palacios I Esta matéria em espanhol

 

Esta série de artigos, que inicialmente seria publicada no blog e agora se desenvolverá no portal, será constituída por uma seleção de atores, diretores, filmes e cenas específicas (ação, sexo, violência...) do cinema latino-americano atual. Isto, claro, com absoluta consciência de que elaborar listas sempre foi algo complicado porque os critérios utilizados são muito subjetivos.

Neste caso, optei por excluir a cinematografia brasileira (que terá uma classificação apenas para si) e considerei atrizes nascidas a partir de 1970, ou seja, esta é uma espécie de seleção sub-40. Evidentemente, não tenho a pretensão de dizer que são as melhores (quem sou eu para isso), nem sequer digo que são as que mais gosto. Há ausências importantes, sem dúvida, mas acredito que as que seguem representam bem o enorme talento existente no continente. Vamos a elas.

Pulsa sobre la imagen para ampliarlaAntonella Costa, Argentina (1980)

A primeira desta lista talvez seja minha atriz latino-americana preferida neste momento. Desde que fez Garage Olimpo, sua estreia cinematográfica, venho acompanhando a carreira desta argentina nascida em Roma (seus pais nesse tempo estavam exilados na Itália devido à ditadura). Para destacar, estão suas atuações em Hoy y Mañana (Hoje e Amanhã) — na qual interpreta uma aspirante a atriz que começa a se prostituir pela falta de dinheiro e oportunidades — e Cobrador, excelente filme de Paul Leduc que não teve a repercussão merecida. O longa mais recente de Antonella, No Mires para Abajo (Não Olhe para Baixo), nos mostra uma atriz já madura; a esta altura, não resta dúvida de que ela nasceu e está feita para o cinema.

Pulsa sobre la imagen para ampliarlaBlanca Lewin, Chile (1974)

Apesar de Ángel Negro (Anjo Negro), publicitado como o primeiro filme de terror do cinema chileno, ter tantos seguidores como detratores, há um ponto que parece ser unânime: a impressionante caracterização de Blanca como a estranha e solitária garota do colégio. Este é sem dúvida o grande mérito do primeiro filme do realizador Jorge Olguín. Entretanto, foi nas mãos de outro diretor, Matías Bize, que a atriz passou a ter seu nome reconhecido inclusive fora do Chile. Isto ocorreu quando Bize — que já a havia chamado para protagonizar um curta e um média-metragem, Sábado, filmado em tempo real — a convocou para compor a Daniela de En la Cama (Na Cama), longa que rendeu a ela vários prêmios internacionais, além de lhe abrir o mercado no exterior. Ángel e Daniela estão interpretados com igual competência pela mesma atriz, o que não é pouco.

Pulsa sobre la imagen para ampliarlaMarina Glezer, Argentina (1980)

O primeiro trabalho que vi desta atriz foi El Polaquito (O Polaquinho), em que deu vida a Pelu, a menina de rua pela qual se apaixona o personagem principal do filme. Seu desempenho foi muito bom e junto com Abel Ayala (notável descoberta) formou uma boa dupla na tela. Mas foi depois de ter visto Roma que prestei mais atenção a sua carreira. Além de emprestar seu corpo para a imagem de divulgação do filme (em uma cena esplendidamente filmada pelo mestre Adolfo Aristarain), Marina consegue transmitir o estado de espírito de sua personagem se valendo mais de suas expressões e silêncios do que das palavras. Uma atriz a ser observada.

Pulsa sobre la imagen para ampliarlaMaya Zapata, México (1983)

Das atrizes desta lista, a única que estreou no cinema quando ainda era uma menina é Maya Zapata, que desde os três anos tem experiência em frente das câmeras. Assim, já conhecia algo dela (Santitos/Santinhos) antes de ver De la Calle (Da Rua), longa que a situou no cinema mexicano, mais ainda depois de ter significado a inclusão de um Ariel em seu currículo. Seu trabalho em curtas é muito interessante (Volemos tomados de la mano, XX-XY, etc.) e seu desempenho em Dos Abrazos (Dois Abraços) foi destacável. Recentemente, esteve estudando roteiro e se preparando para trabalhar em produção, o que demonstra um claro interesse por ampliar seu campo de atuação no cinema. Minha aposta é que ainda escutaremos falar bastante dela, pois apesar de sua juventude é uma atriz completa.


Pulsa sobre la imagen para ampliarlaMelania Urbina, Peru (1977)

Melania é a primeira das representantes peruanas nesta lista, como não poderia deixar de ser. Assisti os nove longa-metragens em que ela atuou, além de um curta e um episódio de Tiempo Final, da Fox — que diga-se de passagem copiou a resenha feita pelo Aldeia Cultural ao compor o texto biográfico da atriz em seu site (não é uma crítica) —. Apesar do papel mais lembrado de Melania ser de longe o da 'garota Dinamite' de Django, la otra cara (Django, a outra cara), meus trabalhos favoritos são os que ela fez sob a direção de Francisco Lombardi: Ojos que no ven (Olhos que não veem) e Mariposa Negra (Borboleta Negra). Some-se a isso sua atuação em Paloma de Papel (Pomba de Papel) e temos uma atriz capaz de representar com igual habilidade desde uma menina doce e um tanto inocente, até uma jogadora sensual e insaciável, passando por uma jovem terrorista e uma mulher obcecada por vingança. Adoro esta atriz.

Pulsa sobre la imagen para ampliarlaMónica Sánchez, Peru (1970)

A carreira de Mónica no cinema é bastante singular porque, apesar de estar considerada como uma das principais do Peru, é difícil apontar um trabalho seu que se destaque no panorama cinematográfico local. Pantaleón y las Visitadoras (Pantaleão e as Visitadoras) seria a resposta óbvia, mas acontece que aí o peso do filme repousa sobre os ombros de Salvador del Solar e Angie Cepeda. Mas me dispus a conhecer mais do seu trabalho e me encontrei com dois longas —Imposible Amor (Amor Impossível) e La Carnada (A Isca) — que são bastante chamativos, especialmente pelo fato de serem filmes 'difíceis', que você sabe que estão dirigidos a um público muito reduzido; o primeiro é particularmente estranho e abstrato. Mesmo assim, Mónica se arrisca nos dois e em ambos sua atuação sobressai por cima daquilo que possa deslocar o espectador. Uma grande atriz, ainda à espera de um grande personagem para viver no cinema.

Pulsa sobre la imagen para ampliarlaNatalia Verbeke, Argentina (1975)

Se eu tivesse que destacar uma cena da carreira de Natalia, certamente a primeira que me viria à mente seria aquela do hospital, com Ricardo Darín, em El Hijo de la Novia (O Filho da Noiva). A tela gigante do cinema, a emoção palpável de seu personagem sem dizer nenhuma palavra, ¿como não querer saber seu nome depois e ver outros trabalhos seus? Infelizmente, sua trajetória no cinema latino-americano não é extensa (agora mesmo só me lembro da fraca Apasionados/Apaixonados), de tal maneira que logo eu a vi mais em filmes estrangeiros como as anglo-estadunidenses Jump Tomorrow e Dot The I ou a espanhola El Otro Lado de la Cama (O Outro Lado da Cama). Vale registrar que, apesar de ser argentina, Natalia vive na Espanha desde os quatro anos, e que ali construiu praticamente toda sua carreira.

Pulsa sobre la imagen para ampliarlaSoledad Ardaya, Bolívia (1978)

Talento forjado no reconhecido e celebrado Teatro de Los Andes durante sete anos, Soledad Ardaya é um exemplo de como é complicado ser atriz em um país sem imagens. Se tivesse nascido em outro lugar, provavelmente já teria um número maior de filmes em seu currículo (tem apenas dois), além de vários trabalhos na televisão (?). Mas Soledad é boliviana, então tudo o que fez no cinema até agora foi Di Buen Día a Papá (Diga Bom Dia ao Papai), cujos méritos estéticos e de atuação o situam como um dos mais valiosos filmes bolivianos, e Sena/Quina, uma brincadeira de Paolo Agazzi de qualidade bastante discutível apesar do excelente elenco. Um desperdício para uma atriz que tem todos os elementos (talento, telegenia, beleza física e dedicação) para se tornar a melhor de seu país e uma das melhores do continente.


Pulsa sobre la imagen para ampliarlaTamara Acosta, Chile (1973)

A carreira de Tamara despontou no fim do século XX, quando ganhou o estatus de 'musa do cinema chileno', já que em um determinado momento parecia que todos queriam trabalhar com ela. E apesar de seu currículo já somar mais de uma dezena de longas, seu auge de popularidade aparentemente já ficou atrás. É também dessa época que se resgatam alguns de seus melhores trabalhos, como El Chacotero Sentimental (O Chacoteiro Sentimental) e Te Amo Made in Chile. Nos últimos anos, o mais interessante sem dúvida foi seu pequeno papel em Machuca; seu discurso na reunião de pais e diretores de colégio conseguiu ser mais eficiente justamente pela enorme capacidade que tem para cativar o espectador com sua presença. Continua sendo uma das melhores, mas precisa personagens mais complexos para que possa demonstrar uma vez mais do que é capaz.

Pulsa sobre la imagen para ampliarlaXimena Ayala, México (1980)

Apareceu para a grande audiência ao interpretar uma adolescente rebelde e carente de afeto em Perfume de Violetas, ganhando de cara prêmios nos festivais de Havana e Guadalajara, além do Ariel à melhor atuação. Com uma estreia tão brilhante, era de se esperar uma carreira promissora no cinema, mas a impressão que dá é que seu grande filme ainda não chegou. Historias del Desencanto (Histórias do Desencanto), que eu não vi, parece explorar muito bem seu potencial e seu rosto particularmente expressivo (perfeito para o cinema), mas o longa posterior que eu destaco é Malos Hábitos (Hábitos Maus), um trabalho de composição delicado de Ximena, em um filme que sobressai por ter algo a dizer. Uma palavra para definir a atriz: encantadora.

 

Desenvolvido por César Farkas

 

O mestre brasileiro do terror está de volta para encerrar sua trilogia

Domingo, 10.08.2008 I Cinema I Reportagem

 

Logo de 21 anos de ter estreado seu último filme, o cineasta José Mojica Marins, considerado o mestre do terror brasileiro, apresentou seu mais recente longa-metragem, Encarnação do Demônio, com o qual encerra uma trilogia sobre Zé do Caixão, seu mais famoso personagem.

 

Encarnação do Demônio fecha a saga iniciada com À Meia-Noite Levarei Sua Alma e continuada com Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, dois clássicos do cinema de terror no Brasil, estrados em 1964 e 1967, respectivamente. Na verdade, o último filme da trilogia deveria ter se realizado também nos anos 60, mas inúmeros problemas foram adiando sua realização até os dias de hoje, quando vários companheiros de Marins envolvidos no projeto já faleceram.

 

A possibilidade de concretizar o longa surgiu em 2000, quando Marins foi procurado por Paulo Sacramento, da produtora Olhos de Cão, e pelo roteirista Dennison Ramanlho, que lhe propuseram combinar a linguagem criada por ele com um padrão que estivesse de acordo com os interesses estéticos do cinema atual. A proposta deu como resultado um filme de altíssima qualidade técnica, sem que tenha se perdido a essência dos trabalhos anteriores do realizador.

 

O orçamento mais alto com o qual contou para este longa permitiu a Marins reunir não só um experiente grupo de profissionais, como também um elenco de primeira linha. Assim, o este está composto por verdadeira lendas, como Jece Valadão (que atuou em quase uma centena de filmes ants de morrer, há dois anos), José Celso Martinez Corrêa (um dos maiores diretores do teatro brasileiro em todos os tempos) e Helena Ignez (antiga musa do cinema novo). A eles se somaram Adriano Stuart, Milhem Cortaz, Rui Resende, Cristina Aché, Thais Simi, Cléo de Páris y Giulio Lopes, entre muitos outros. 

 

Nesta última entrega, Zé do Caixão é liberado depois de ter passado quarenta anos em uma cela para doentes mentais, na qual havia sido recluído pelos bárbaros crimes cometidos na sua busca obsessiva pela mulher que lhe dê um filho perfeito. Agora, de volta às ruas de São Paulo, Zé está pronto para voltar a assombrar os que cruzem seu caminho e não descansará enquanto não atingir seu objetivo, deixando para trás uma trilha de horror, destruição e sangue.

 

Visite a galeria de fotos do filme.

 

Foto: André Sigwalt l DivulgaçãoUma vida tão estranha e fascinante como seu personagem

 

Zé do Caixão foi criado por José Mojica Marins em uma noite de outubro de 1963, depois que este foi atormentado por um pesadelo em que um homem de capa preta e cartola o arrastava até seu próprio túmulo, onde estava escrita a data de sua morte. Ao acordar, ainda impressionado, o realizador anotou tudo em um papel e imediatamente escreveu o roteiro de À Meia-Noite Levarei Sua Alma, no qual o sinistro personagem apareceu pela primeira vez, tornándo-se logo o maior mito da história do cinema de terror brasileiro e latinoamericano.

 

No entanto, o temível personagem não é mais estranho que a vida de seu criado. Filho de pais espanhóis, José Mojica Marins nasceu em 1936 depois de uma gestação de onze meses, atraso ocasionado por uma condição irregular do ventre de sua mãe. Aos três anos de idade, foi seqüestrado por um grupo de ciganos e aos dez filmou seu primeiro curta, depois do qual foi expulso das classes dramáticas da igreja local pelas suas espantosas imagens, que mostravam como os bons eram levados ao céu em um caixão voador e os maus eram transformados em vermes.

 

Aos 15 anos, Marins já tinha 20 curtas filmados, mas dois anos depois  teve que desistir de concluir seu primeiro longa, devido aos trágicos acontecimentos que alcançaram as três atrizes que deveriam interpretar o papel principal: a primeira se afogou em uma piscina, sua substituta morreu de tuberculose durante a filmagem e a última foi atropelada e teve uma perna amputada por causa do acidente. Somente aos 23 o jovem cineasta pôde terminar um longa, ficando famoso pelos castings em que os candidatos eram obrigados a comer insetos vivos e praticar pequenas automutilações, como prova de que poderiam suportar as exigências dos roteiros, em que abundavam horripilantes cenas com sapos, víboras e tarântulas, além de diversas torturas e humilhações.

 

Pai de 23 filhos com sete mulheres diferentes, Mojica Marins foi o cineasta mais censurado e perseguido da história do Brasil, mais hoje seus filmes são reverenciados pelos críticos especializados de vários países e mereceram retrospectivas em festivais como o de Sitges, Buenos Aires, Amsterdã e Fantasporto. Do mesmo modo, os criadores da famosa série fílmica protagonizada por Freddie Krueger reconheceram que se inspiraram no personagem de Zé do Caixão e a revista Cult Movies garantiu certa vez que "Marins é o melhor diretor de terror do mundo".


Conheça mais sobre José Mojica Marins nesta excelente resenha biográfica (em espanhol) escrita por Jorge Grajales, originalmente publicada na Cinefagia, ou na página web da Quinta Dimensión.

 

 

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www.aldeiacultural.com