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Um outro
olhar ao cinema latino-americano I Parte 1: dez atrizes hispanas
Terça-feira,
26.05.2009 I Opinião I Autor:
Sergio Palacios I
Esta matéria em espanhol
Esta série de
artigos, que inicialmente seria publicada no blog e agora se
desenvolverá no portal, será constituída por uma seleção de atores,
diretores, filmes e cenas específicas (ação, sexo, violência...) do
cinema latino-americano atual. Isto, claro, com absoluta consciência
de que elaborar listas sempre foi algo complicado porque os
critérios utilizados são muito subjetivos.
Neste caso, optei por excluir a cinematografia brasileira (que terá
uma classificação apenas para si) e considerei atrizes nascidas a
partir de 1970, ou seja, esta é uma espécie de seleção sub-40.
Evidentemente, não tenho a pretensão de dizer que são as melhores (quem
sou eu para isso), nem sequer digo que são as que mais gosto. Há
ausências importantes, sem dúvida, mas acredito que as que seguem
representam bem o enorme talento existente no continente. Vamos a
elas.
Antonella
Costa, Argentina (1980)
A primeira desta lista talvez seja minha atriz latino-americana
preferida neste momento. Desde que fez Garage Olimpo, sua
estreia cinematográfica, venho acompanhando a carreira desta
argentina nascida em Roma (seus pais nesse tempo estavam exilados na
Itália devido à ditadura). Para destacar, estão suas atuações em
Hoy y Mañana (Hoje e Amanhã) — na qual interpreta uma
aspirante a atriz que começa a se prostituir pela falta de dinheiro
e oportunidades — e Cobrador, excelente filme de Paul Leduc
que não teve a repercussão merecida. O longa mais recente de
Antonella, No Mires para Abajo (Não Olhe para Baixo),
nos mostra uma atriz já madura; a esta altura, não resta dúvida de
que ela nasceu e está feita para o cinema.
Blanca
Lewin, Chile (1974)
Apesar de Ángel Negro (Anjo Negro), publicitado como o
primeiro filme de terror do cinema chileno, ter tantos seguidores
como detratores, há um ponto que parece ser unânime: a
impressionante caracterização de Blanca como a estranha e solitária
garota do colégio. Este é sem dúvida o grande mérito do primeiro
filme do realizador Jorge Olguín. Entretanto, foi nas mãos de outro
diretor, Matías Bize, que a atriz passou a ter seu nome reconhecido
inclusive fora do Chile. Isto ocorreu quando Bize — que já a havia
chamado para protagonizar um curta e um média-metragem, Sábado,
filmado em tempo real — a convocou para compor a Daniela de En la
Cama (Na Cama), longa que rendeu a ela vários prêmios
internacionais, além de lhe abrir o mercado no exterior. Ángel e
Daniela estão interpretados com igual competência pela mesma atriz,
o que não é pouco.
Marina
Glezer, Argentina (1980)
O primeiro trabalho que vi desta atriz foi El Polaquito (O
Polaquinho), em que deu vida a Pelu, a menina de rua pela
qual se apaixona o personagem principal do filme. Seu desempenho foi
muito bom e junto com Abel Ayala (notável descoberta) formou uma boa
dupla na tela. Mas foi depois de ter visto Roma que prestei
mais atenção a sua carreira. Além de emprestar seu corpo para a
imagem de divulgação do filme (em uma cena esplendidamente filmada
pelo mestre Adolfo Aristarain), Marina consegue transmitir o estado
de espírito de sua personagem se valendo mais de suas expressões e
silêncios do que das palavras. Uma atriz a ser observada.
Maya
Zapata, México (1983)
Das atrizes desta lista, a única que estreou no cinema quando ainda
era uma menina é Maya Zapata, que desde os três anos tem experiência
em frente das câmeras. Assim, já conhecia algo dela (Santitos/Santinhos)
antes de ver De la Calle (Da Rua), longa que a situou
no cinema mexicano, mais ainda depois de ter significado a inclusão
de um Ariel em seu currículo. Seu trabalho em curtas é muito
interessante (Volemos tomados de la mano, XX-XY,
etc.) e seu desempenho em Dos Abrazos (Dois Abraços)
foi destacável. Recentemente, esteve estudando roteiro e se
preparando para trabalhar em produção, o que demonstra um claro
interesse por ampliar seu campo de atuação no cinema. Minha aposta é
que ainda escutaremos falar bastante dela, pois apesar de sua
juventude é uma atriz completa.
Melania
Urbina, Peru (1977)
Melania é a primeira das representantes peruanas nesta lista, como
não poderia deixar de ser. Assisti os nove longa-metragens em que
ela atuou, além de um curta e um episódio de
Tiempo Final, da Fox — que diga-se de passagem copiou a resenha
feita pelo
Aldeia Cultural ao compor o texto biográfico da atriz em seu
site (não é uma crítica) —. Apesar do papel mais lembrado de Melania
ser de longe o da 'garota Dinamite' de Django, la otra cara (Django,
a outra cara), meus trabalhos favoritos são os que ela fez
sob a direção de Francisco Lombardi: Ojos que no ven (Olhos
que não veem) e Mariposa Negra (Borboleta Negra).
Some-se a isso sua atuação em Paloma de Papel (Pomba de
Papel) e temos uma atriz capaz de representar com igual
habilidade desde uma menina doce e um tanto inocente, até uma
jogadora sensual e insaciável, passando por uma jovem terrorista e
uma mulher obcecada por vingança. Adoro esta atriz.
Mónica
Sánchez, Peru (1970)
A carreira de Mónica no cinema é bastante singular porque, apesar de
estar considerada como uma das principais do Peru, é difícil apontar
um trabalho seu que se destaque no panorama cinematográfico local.
Pantaleón y las Visitadoras (Pantaleão e as
Visitadoras) seria a resposta óbvia, mas acontece que aí o
peso do filme repousa sobre os ombros de Salvador del Solar e Angie
Cepeda. Mas me dispus a conhecer mais do seu trabalho e me encontrei
com dois longas —Imposible Amor (Amor Impossível)
e La Carnada (A Isca) — que são bastante chamativos,
especialmente pelo fato de serem filmes 'difíceis', que você sabe
que estão dirigidos a um público muito reduzido; o primeiro é
particularmente estranho e abstrato. Mesmo assim, Mónica se arrisca
nos dois e em ambos sua atuação sobressai por cima daquilo que possa
deslocar o espectador. Uma grande atriz, ainda à espera de um grande
personagem para viver no cinema.
Natalia
Verbeke, Argentina (1975)
Se eu tivesse que destacar uma cena da carreira de Natalia,
certamente a primeira que me viria à mente seria aquela do hospital,
com Ricardo Darín, em El Hijo de la Novia (O Filho da Noiva).
A tela gigante do cinema, a emoção palpável de seu personagem sem
dizer nenhuma palavra, ¿como não querer saber seu nome depois e ver
outros trabalhos seus? Infelizmente, sua trajetória no cinema
latino-americano não é extensa (agora mesmo só me lembro da fraca
Apasionados/Apaixonados), de tal maneira que logo eu a vi
mais em filmes estrangeiros como as anglo-estadunidenses Jump
Tomorrow e Dot The I ou a espanhola El Otro
Lado de la Cama (O Outro Lado da Cama). Vale registrar
que, apesar de ser argentina, Natalia vive na Espanha desde os
quatro anos, e que ali construiu praticamente toda sua carreira.
Soledad
Ardaya, Bolívia (1978)
Talento forjado no reconhecido e celebrado
Teatro de
Los Andes durante sete anos, Soledad Ardaya é um exemplo de como
é complicado ser atriz em um país sem imagens. Se tivesse nascido em
outro lugar, provavelmente já teria um número maior de filmes em seu
currículo (tem apenas dois), além de vários trabalhos na televisão
(?). Mas Soledad é boliviana, então tudo o que fez no cinema até
agora foi Di Buen Día a Papá (Diga Bom Dia ao Papai),
cujos méritos estéticos e de atuação o situam como um dos mais
valiosos filmes bolivianos, e Sena/Quina, uma brincadeira de
Paolo Agazzi de qualidade bastante discutível apesar do excelente
elenco. Um desperdício para uma atriz que tem todos os elementos
(talento, telegenia, beleza física e dedicação) para se tornar a
melhor de seu país e uma das melhores do continente.
Tamara
Acosta, Chile (1973)
A carreira de Tamara despontou no fim do século XX, quando ganhou o
estatus de 'musa do cinema chileno', já que em um determinado
momento parecia que todos queriam trabalhar com ela. E apesar de seu
currículo já somar mais de uma dezena de longas, seu auge de
popularidade aparentemente já ficou atrás. É também dessa época que
se resgatam alguns de seus melhores trabalhos, como El Chacotero
Sentimental (O Chacoteiro Sentimental) e Te Amo
Made in Chile. Nos últimos anos, o mais interessante sem dúvida
foi seu pequeno papel em Machuca; seu discurso na reunião de
pais e diretores de colégio conseguiu ser mais eficiente justamente
pela enorme capacidade que tem para cativar o espectador com sua
presença. Continua sendo uma das melhores, mas precisa personagens
mais complexos para que possa demonstrar uma vez mais do que é
capaz.
Ximena
Ayala, México (1980)
Apareceu para a grande audiência ao interpretar uma adolescente
rebelde e carente de afeto em Perfume de Violetas, ganhando
de cara prêmios nos festivais de Havana e Guadalajara, além do Ariel
à melhor atuação. Com uma estreia tão brilhante, era de se esperar
uma carreira promissora no cinema, mas a impressão que dá é que seu
grande filme ainda não chegou. Historias del Desencanto (Histórias
do Desencanto), que eu não vi, parece explorar muito bem seu
potencial e seu rosto particularmente expressivo (perfeito para o
cinema), mas o longa posterior que eu destaco é Malos Hábitos
(Hábitos Maus), um trabalho de composição delicado de
Ximena, em um filme que sobressai por ter algo a dizer. Uma palavra
para definir a atriz: encantadora.

O mestre brasileiro do terror
está de volta para
encerrar sua trilogia
Domingo, 10.08.2008 I
Cinema I Reportagem
Logo de 21 anos de ter estreado
seu último filme, o cineasta José Mojica Marins, considerado o
mestre do terror brasileiro, apresentou seu mais recente longa-metragem,
Encarnação do Demônio, com o qual encerra uma
trilogia sobre Zé do Caixão, seu mais famoso personagem.
Encarnação do Demônio
fecha a saga iniciada com À Meia-Noite Levarei Sua Alma
e continuada com Esta
Noite Encarnarei no Teu Cadáver, dois clássicos do cinema de
terror no Brasil, estrados em 1964 e 1967, respectivamente. Na
verdade, o último filme da trilogia deveria ter se realizado também
nos anos 60, mas inúmeros problemas foram adiando sua realização até
os dias de hoje, quando vários companheiros de Marins envolvidos no
projeto já faleceram.
A possibilidade de concretizar o
longa surgiu em 2000, quando Marins foi procurado por Paulo
Sacramento, da produtora Olhos de Cão, e pelo roteirista Dennison
Ramanlho, que lhe propuseram combinar a linguagem criada por ele com
um padrão que estivesse de acordo com os interesses estéticos do
cinema atual. A proposta deu como resultado um filme de altíssima
qualidade técnica, sem que tenha se perdido a essência dos trabalhos
anteriores do realizador.
O orçamento mais alto com o qual
contou para este longa permitiu a Marins reunir não só um experiente
grupo de profissionais, como também um elenco de primeira linha.
Assim, o este está composto por verdadeira lendas, como
Jece Valadão
(que atuou em quase uma centena de filmes ants de morrer, há dois
anos), José Celso Martinez Corrêa (um dos maiores diretores do
teatro brasileiro em todos os tempos) e Helena Ignez (antiga musa do
cinema novo). A eles se somaram Adriano Stuart,
Milhem Cortaz,
Rui Resende, Cristina Aché, Thais Simi, Cléo de Páris y Giulio Lopes,
entre muitos outros.
Nesta última entrega, Zé do
Caixão é liberado depois de ter passado quarenta anos em uma cela
para doentes mentais, na qual havia sido recluído pelos bárbaros
crimes cometidos na sua busca obsessiva pela mulher que lhe dê um
filho perfeito. Agora, de volta às ruas de São Paulo, Zé está
pronto para voltar a assombrar os que cruzem seu caminho e não
descansará enquanto não atingir seu objetivo, deixando para trás uma
trilha de horror, destruição e sangue.
Visite a
galeria de fotos do filme.
Uma
vida tão estranha e fascinante como seu personagem
Zé do Caixão foi criado por José Mojica Marins
em uma noite de outubro de 1963, depois que este foi atormentado por
um pesadelo em que um homem de capa preta e cartola o arrastava até
seu próprio túmulo, onde estava escrita a data de sua morte. Ao
acordar, ainda impressionado, o realizador anotou tudo em um papel e
imediatamente escreveu o roteiro de À Meia-Noite
Levarei Sua Alma, no qual o sinistro personagem apareceu pela
primeira vez, tornándo-se logo o maior mito da história do cinema de
terror brasileiro e latinoamericano.
No entanto, o temível personagem
não é mais estranho que a vida de seu criado. Filho de pais
espanhóis, José Mojica Marins nasceu em 1936 depois de uma gestação
de onze meses, atraso ocasionado por uma condição irregular do
ventre de sua mãe. Aos três anos de idade, foi seqüestrado por um
grupo de ciganos e aos dez filmou seu primeiro curta, depois do qual
foi expulso das classes dramáticas da igreja local pelas suas
espantosas imagens, que mostravam como os bons eram levados ao céu
em um caixão voador e os maus eram transformados em vermes.
Aos 15 anos, Marins já tinha 20
curtas filmados, mas dois anos depois teve que desistir de
concluir seu primeiro longa, devido aos trágicos acontecimentos que
alcançaram as três atrizes que deveriam interpretar o papel
principal: a primeira se afogou em uma piscina, sua substituta
morreu de tuberculose durante a filmagem e a última foi atropelada e
teve uma perna amputada por causa do acidente. Somente aos 23 o
jovem cineasta pôde terminar um longa, ficando famoso pelos castings
em que os candidatos eram obrigados a comer insetos vivos e praticar
pequenas automutilações, como prova de que poderiam suportar as
exigências dos roteiros, em que abundavam horripilantes cenas com
sapos, víboras e tarântulas, além de diversas torturas e humilhações.
Pai de 23 filhos com sete
mulheres diferentes, Mojica Marins foi o cineasta mais censurado e
perseguido da história do Brasil, mais hoje seus filmes são
reverenciados pelos críticos especializados de vários países e
mereceram retrospectivas em festivais como o de Sitges, Buenos
Aires, Amsterdã e Fantasporto. Do mesmo modo, os criadores da famosa
série fílmica protagonizada por Freddie Krueger reconheceram que se
inspiraram no personagem de Zé do Caixão e a revista Cult Movies
garantiu certa vez que "Marins é o melhor diretor de terror do
mundo".
Conheça mais sobre José Mojica
Marins nesta excelente
resenha biográfica (em espanhol) escrita por Jorge Grajales,
originalmente publicada na
Cinefagia, ou na página web da
Quinta Dimensión.
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